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    Reportagem

    Confira aqui as análises, entrevistas e repercussões de notícias que você pode ouvir e baixar. As reportagens +RFI propõem a cobertura de eventos importantes no mundo inteiro feita pelos repórteres e correspondentes da Rádio França Internacional.

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    Latest Episodes:
    Brasileiros que mantêm a fé católica em português na França celebram a visita do papa Sep 26, 2026
    Show notes

    A visita do papa Leão XIV à França mobiliza multidões e provoca mudanças na rotina de Paris. Neste sábado (26), 600 mil fiéis são esperados para a missa na Praça da Concórdia e na avenida Champs-Élysées, ponto alto da passagem do sumo pontífice pela capital francesa. Entre os católicos brasileiros da região parisiense, a expectativa é grande para acompanhar o evento. Leão XIV é o primeiro papa a realizar uma visita oficial à França em 18 anos.

    Luiza Ramos, da RFI em Paris

    Segundo Paulo César Santana, organizador do grupo de oração Embaixadores de Cristo, na periferia da capital francesa, a procura por informações e inscrições para os eventos papais foi intensa nas últimas semanas entre os brasileiros da região.

    “Em torno de umas 100 pessoas, a gente tem certeza de que vão. E eu sei que fora, há outros católicos que não frequentam a nossa comunidade, mas que vão a paróquias francesas perto da casa deles, que também vão [à missa]. Então a expectativa de brasileiros vai ser grande, vai ter muitos!”, afirma.

    O père Welly, como é conhecido o padre Wellington Santos Pires, titular da Paróquia Saint-Saturnin, acredita que a visita pode deixar memórias duradouras nos fiéis e relembra a Jornada Mundial da Juventude de 1997 na França.

    “Eu converso com pessoas que acolheram o papa João Paulo II para a JMJ e me falam com brilho nos olhos. Pessoas que eram muito jovens e que foram tocadas pelas palavras do papa na época. Ele tem essa capacidade de tocar, sobretudo individualmente, as pessoas. A presença do papa não deixa as pessoas indiferentes, tanto as católicas quanto as contrárias à fé”, conta.

    O sacerdote brasileiro, natural do sul da Bahia e residente na França desde 2016, espera que a passagem de um papa pelo país possa renovar o interesse pela vida religiosa e estimular reflexões dentro e fora da Igreja.

    “Para mim, a visita papal tem potencial de uma boa provocação”, resume.

    Fé em português ajuda a manter vínculos com o Brasil

    Para muitos brasileiros que vivem na França, a fé também se tornou uma forma de manter laços com o país de origem. Alguns, como o goiano Paulo César Santana e sua esposa Fernanda, encontram na língua portuguesa um espaço de acolhimento e pertencimento.

    Eles organizam juntos há 11 anos o grupo de oração Embaixadores de Cristo, na Capelania Brasileira de Paris, administrada pelo padre Júlio Peixoto, na Paróquia Sainte Marie du Plant, em Champigny-sur-Marne. Paulo conta que a iniciativa surgiu depois das dificuldades enfrentadas nos primeiros anos de adaptação à França, quando ainda não falava bem o francês.

    “Eu falei para o Senhor: ‘O que eu passei, eu não quero que ninguém passe’. E foi quando a gente começou o grupo de oração”, recorda.

    O grupo também atua como uma pastoral social, auxiliando com cestas básicas e apoio a pessoas recém-chegadas ou que enfrentam dificuldades no país.

    As reuniões semanais em português acontecem às quartas-feiras e reúnem um número variável de participantes ao longo do ano. Segundo Paulo, o grupo pode receber desde duas ou três pessoas até dezenas de participantes em um mesmo encontro.

    Missa de domingo “é dia de estar no Brasil”

    Já as missas celebradas em português aos domingos na Capelania Brasileira costumam ficar lotadas.

    “Você está em um país, você tem que se adaptar àquele país. Mas, quando você tira um domingo e fala: ‘o domingo é do Senhor’ e vai se reunir com pessoas que falam a mesma língua. É como se fosse dizer que ‘o meu domingo é o dia de eu estar no Brasil’. Então isso ajuda muito o imigrante”, explica.

    Padre Welly concorda que a língua ocupa um papel importante na vivência religiosa dos imigrantes.

    “Eu penso que a capelania existe para atender aqueles fiéis que, do ponto de vista pastoral, eclesial e espiritual, têm dificuldade de se conectar com o jeito francês de rezar, de se conectar com Deus. Daí a importância da língua na nossa relação com Deus”, afirma.

    Ao mesmo tempo, ele considera importante que os fiéis também se abram para a realidade local: “para mim, o desafio consiste em não se fechar em uma comunidade. Não devo me fechar às experiências do próprio país em que eu me encontro”, enfatiza o sacerdote.

    Visita histórica do papa Leão XIV

    A dimensão histórica também ajuda a explicar o entusiasmo dos católicos. Será a primeira visita apostólica de um papa à França em 18 anos, embora Francisco tenha passado pelo país em três ocasiões durante seu pontificado. Antes dele, Bento XVI esteve na França em 2008. Já João Paulo II visitou o país sete vezes, tornando-o seu destino internacional mais frequente fora da Polônia.

    A mobilização é tamanha que a Igreja Católica francesa elevou para cerca de € 27 milhões o orçamento logístico destinado à recepção dos peregrinos e visitantes.

    O interesse em torno da viagem de Leão XIV é reforçado por sua relação com a cultura local. Diferentemente de alguns antecessores, ele fala francês e, desde o início do pontificado, faz referências frequentes à espiritualidade do país e demonstra interesse pelos desafios enfrentados atualmente pela Igreja Católica francesa.

    Leia tambémCom ancestrais na França, Leão XIV já é considerado 'o mais francês dos papas estrangeiros'


    Turismo religioso leva brasileiros aos santuários da França às vésperas da visita do papa Leão XIV Sep 24, 2026
    Show notes

    Enquanto a França se prepara para receber o papa Leão XIV entre os dias 25 e 28 de setembro, um grupo de brasileiros já percorre alguns dos principais locais de peregrinação católica do país. Vindos do estado de São Paulo, os 24 integrantes da viagem participam de missas em português e visitam santuários históricos em busca de uma experiência espiritual.

    Luiza Ramos, da RFI em Paris

    A viagem foi organizada meses antes do anúncio da visita do pontífice à França. Ainda assim, a notícia despertou entusiasmo entre os peregrinos.

    “Quando se fala do papa, todo mundo fica eufórico, fica a mil”, conta Evangevaldo Avelar, diretor da Praxis Viagens, agência especializada em turismo religioso.

    “Eu sinto isso quando estou em Roma com o grupo na audiência com o papa. Na hora em que o papa aparece, eu vejo a emoção de cada pessoa. É uma coisa indescritível”, diz. Com mais de quatro décadas de experiência no setor, ele lamenta que a visita de Leão XIV não coincida com a peregrinação do grupo.

    Segundo Avelar, o turismo religioso católico vive um momento de crescimento no Brasil. Tradicionalmente associadas a fiéis mais velhos, as peregrinações também têm atraído novos públicos, especialmente após eventos como a Jornada Mundial da Juventude.

    “O turismo religioso católico no Brasil vem em um grande crescimento. Nos anos 1980 e 1990 tinha uma, duas agências. Hoje, só no estado de São Paulo, deve ter pelo menos umas 20 agências especializadas nesse tipo de turismo. As pessoas têm procurado muito porque se sentem mais seguras na peregrinação e acolhidas em grupo”, explica.

    A Terra Santa segue sendo o destino mais desejado pelos peregrinos, mas a guerra no Oriente Médio levou muitos grupos a buscar alternativas. França, Portugal, Itália e Espanha ganharam espaço nos roteiros organizados por agências especializadas.

    Apesar da tradição laica francesa, o país abriga alguns dos locais mais importantes do catolicismo. Paris, Lourdes, Chartres e Lisieux estão entre os destinos mais procurados pelos brasileiros.

    Uma viagem diferente do turismo convencional

    Entre os participantes da peregrinação está a analista financeira Sandra Guardalben, moradora de Santo André, no ABC Paulista. Católica desde a infância, ela participa da terceira viagem internacional com motivação religiosa.

    Antes da França, Sandra percorreu sozinha o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, e visitou santuários italianos com a mesma agência. Para ela, a grande diferença está no propósito da viagem.

    “A gente acaba deixando de lado as compras, os shoppings, os restaurantes importantes, a moda, e foca mais na parte religiosa da fé”

    Ela afirma que a presença de um padre brasileiro com o grupo é o que diferencia o turismo católico.

    “A gente tem a oportunidade de participar de uma missa diária com um ‘professor’, que, além do lado espiritual, ensina para a gente o verdadeiro sentido das histórias de cada local, dos santos, dos milagres. Isso é muito importante, é um diferencial grande”, conta.

    Além de visitas aos santuários, missas e momentos de aprendizado religioso, os católicos também passam por pontos turísticos clássicos de Paris, como a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo, e passeiam de barco no rio Sena.

    Peregrinação como experiência espiritual

    O grupo, acompanhado pela reportagem da RFI, é orientado pelo padre Fernando Rocha Zapaterro, da Diocese de Santo André. Segundo ele, o objetivo vai além do turismo.

    “Em geral, os brasileiros quando saem do Brasil, em primeiro lugar, querem viajar. Mas todas as vezes que eu faço uma peregrinação, todos os que viajam comigo já sabem que é para ter um momento de uma experiência religiosa profunda”, explica.

    “Para poder viver nos santuários um pouco daquilo que aconteceu naqueles lugares, que são lugares para conversão. Para uma nova mudança de vida, para um aprofundamento na fé. Eu normalmente falo isso para os peregrinos e, de algum modo, tento imprimir isso também no coração deles”, diz.

    Para o sacerdote, as peregrinações oferecem aos participantes uma oportunidade de reflexão e até de transformação pessoal.

    “Já teve casos de gente que se converte em peregrinações. Gente que vai porque alguém convidou, um familiar, alguém indicou. Acaba indo junto e, no fim das contas, acaba tendo uma grande conversão.”

    Enquanto a chegada de Leão XIV mobiliza católicos na França, os brasileiros que já estão no país seguem o caminho das peregrinações que terminarão com uma missa no Duomo de Milão, a famosa catedral de estilo gótico, na Itália, local histórico da fé cristã. E, de volta para casa, levarão a mesma expectativa que acompanha a chegada de um papa: fortalecer a fé.

    Leia tambémFutura visita do papa à França reacende debate sobre fé, laicidade e fim da vida


    À espera de Leão XIV, freiras brasileiras destacam a fé dos peregrinos na Capela da Medalha Milagrosa Sep 23, 2026
    Show notes

    A expectativa pela visita do papa Leão XIV à França é grande entre as freiras que vivem na Casa-Mãe da Companhia das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, convento localizado no Palacete de Châtillon, na Rue du Bac, no centro de Paris. Instaladas ao lado da Capela Nossa Senhora da Medalha Milagrosa, um dos locais de peregrinação mais frequentados por católicos do mundo inteiro, elas acompanham diariamente a chegada de grupos de todas as nacionalidades, inclusive muitos brasileiros em busca de oração, graças e renovação da fé.

    Luiza Ramos, da RFI em Paris

    A congregação, fundada na França por São Vicente de Paulo e Santa Luísa de Marillac, está presente em 97 países. A casa-mãe atualmente reúne cerca de 150 religiosas de mais de 20 nacionalidades, além de abrigar o centro internacional de formação e a administração da instituição.

    Natural do Paraná e há quase oito anos na França, a irmã Isel explica que muitas religiosas passam por Paris para conhecer a história da congregação e aprofundar sua formação espiritual. “A casa-mãe é o centro internacional e também é um lugar onde as irmãs vêm primeiramente para receber uma formação de 15 dias a um mês. Como a congregação surgiu aqui na França, elas têm a oportunidade de ir às cidades onde nasceram e viveram os fundadores”, detalha.

    “Esta casa é o reflexo dessa internacionalidade da congregação. As irmãs vêm para poder servir nos diversos serviços de que nós temos necessidade, tanto no nível da acolhida das irmãs nessa parte de formação quanto para acolher os peregrinos que vêm à capela”.

    Enquanto algumas freiras permanecem apenas algumas semanas em Paris, outras são enviadas para missões mais longas, como é o caso das religiosas brasileiras que atuam no acolhimento dos peregrinos na Capela da Medalha Milagrosa.

    Leia também‘Santo millennial’ que fez milagre no Brasil é canonizado por Leão XIV

    Brasileiros chegam em busca de oração e agradecimento

    Entre elas está a irmã Roselena, mineira que vive na França há dois anos e meio. Ela conta que os visitantes brasileiros costumam chegar à capela já cientes da presença de freiras conterrâneas e as procuram diretamente para se aconselhar e pedir informações. “Eles sempre procuram: ‘Tem alguma brasileira? Ah, fiquei sabendo, já perguntei se tinha uma brasileira. É você?’”, conta ela.

    “Eles vêm mesmo para agradecer a Deus e para pedir também alguma coisa. Porque nós precisamos sempre de alguma coisa, sobretudo da ajuda do alto. E eles vêm com muita fé, bem entusiasmados. Eles dizem que saem daqui diferentes. Muitos chegam a chorar, ficam emocionados”, relata Roselena.

    A religiosa observa que excursões vindas do Brasil chegam diariamente ao local. Além de participar de missas em português ou mesmo em francês, os peregrinos brasileiros são os que costumam comprar mais medalhas e objetos religiosos na lojinha da capela para familiares e amigos.

    A irmã Eriane, paraense da Ilha do Marajó, há três anos em Paris, percebe uma diferença marcante entre os brasileiros e muitos visitantes estrangeiros. “O peregrino brasileiro é barulhento”, brinca. “Mas quando entra na capela, se recolhe”.

    “No momento de oração, a gente percebe essa piedade muito grande. Enquanto os outros entram por curiosidade para olhar o que tem na capela e perguntam, o brasileiro não; ele vem com essa vontade de rezar e de encontrar Deus e encontra de fato ali na capela”, afirma Eriane.

    Segundo ela, muitos peregrinos chegam esperando visitar um grande santuário dedicado a Nossa Senhora das Graças, mas se surpreendem com a simplicidade da Capela da Medalha Milagrosa, conhecida mundialmente pelas aparições marianas a Santa Catarina Labouré, em 1830.

    Visita do papa Leão XIV à França

    A proximidade da visita do papa Leão XIV a Paris alimenta ainda mais a mobilização da comunidade religiosa. Os eventos, que passarão também pelas cidades de Lourdes e Metz, devem reunir cerca de 1 milhão de pessoas no total, segundo os organizadores.

    Para a irmã Conceição, de Fortaleza, no Ceará, “a vinda do papa renova a fé e desperta outras pessoas para descobrir Deus”. “É uma alegria que nos emociona”, diz, referindo-se à missa aberta ao público na praça da Concórdia e na Avenida Champs-Élysées em 26 de setembro, que deve receber pelo menos 500 mil fiéis.

    A presença do pontífice representa uma oportunidade de renovação espiritual para a Igreja na França, mas a programação de dois dias na capital não contempla passagem pela Capela da Medalha Milagrosa.

    “A gente lamenta que ele não venha aqui, mas a gente sente que todas as irmãs de todas as línguas, de todas as nações aqui reunidas, vibram por esse momento de se encontrar com o papa”.

    A freira recorda que, apesar de ser um país frequentemente associado à laicidade, as inscrições para os eventos abertos ao público e gratuitos esgotaram rapidamente, enquanto estima-se que outras 150 mil pessoas devam acompanhar o percurso do papamóvel em Paris. Em um contexto de declínio da prática religiosa na França, ela vê a visita como uma oportunidade de renovação para a Igreja Católica no país.

    “A quantidade de pessoas que se inscreveu é imensa. Mesmo em um país em que a fé católica já diminuiu bastante. Eu acho que a vinda do papa aqui na França serve para renovar a religião católica aqui”, conclui irmã Conceição.


    Carla Madeira lança livro em Oeiras em meio à valorização da literatura brasileira em Portugal Sep 20, 2026
    Show notes

    O novo livro de Carla Madeira, “Quando”, chegou às livrarias brasileiras em agosto e já terá sua primeira edição internacional. A obra será publicada na próxima semana em Portugal pela Particular Editora e chega oficialmente ao mercado no dia 26 de setembro, durante a Festa do Livro de Oeiras.

    Luciana Alvarez, correspondente da RFI em Lisboa

    Na terra onde Camões escreveu “Os Lusíadas”, um marco para a origem da língua portuguesa, escritores brasileiros têm ganhado mais espaço nos últimos anos – e sem precisar adaptar a linguagem para o jeito que os portugueses falam o português.

    Miguel Pereira, editor responsável pelos livros de Carla em Portugal, conta que toda vez que publicam um autor brasileiro, incluem apenas a seguinte nota explicativa: “A presente edição segue a grafia original”.

    “Não há nenhuma vontade ou nenhuma ideia de superioridade relativamente a um português sobre o outro, porque isso não existe. A partir do momento em que estamos a falar de literatura, ou seja, da forma como os autores escrevem, e entendemos isso como manifestação artística pura, entendemos que deixava de fazer grande sentido fazer adaptações”, explicou Pereira.

    O editor executivo lembra que já foram feitas algumas experiências de tentar adaptar a linguagem dos escritores brasileiros para o padrão do idioma em Portugal, mas a ideia acabou abandonada. Os portugueses já habituaram os ouvidos ao jeito de falar brasileiro graças às telenovelas e às músicas, e não estranham mais a literatura produzida com a nossa variante da língua.

    'Autocarro e comboio'

    “O português que se fala no Brasil é tão familiar para os portugueses que não fazia sentido insistir nesse tipo de alteração. Se fôssemos fazer, realmente teríamos que fazer muitas alterações no vocabulário", afirma. "Como alterar o ônibus para autocarro e o e o trem para comboio, mas toda a gente em Portugal sabe o que é um trem.”

    Além de Carla Madeira, a Particular Editora trouxe para Portugal vários outros autores brasileiros contemporâneos, como Aline Bei, Rafael Montes, Socorro Acioli e Caetano Galindo.

    A presença de uma nova geração de autores é sentida também pelos leitores. A professora Patrícia Cerutti, organizadora de clubes de leitura e mediadora de debates em festas literárias, nota que não é mais preciso viajar ao Brasil para trazer na mala os livros de escritores brasileiros.

    “Quando eu cheguei aqui, há 8 anos, tinha muito menos autores brasileiros nas nas livrarias. Existiam alguns já muito conhecidos, mas não tinha essa profusão de autores que estão chegando e publicando tanto nas grandes editoras, quanto nas menores", ressalta. "Antigamente, se lia aqui muito autor estrangeiro de língua não portuguesa traduzido: muito inglês, muito americano, francês, italiano, espanhol."

    Valorização de autores brasileiros além dos consagrados

    Embora o reconhecimento obtido por Carla Madeira seja especial, ela não está sozinha. Há uma tendência de valorização da literatura brasileira.

    Na festa do livro de Oeiras, onde ela vem fazer seu lançamento, outro grande destaque vem também do Brasil: é a cantora e escritora Zélia Duncan, que vai apresentar seu livro “Benditas coisas que eu não sei”.

    No ano passado, o festival deu destaque para o brasileiro Silviano Santiago, que veio pela primeira vez apresentar um livro em Portugal.

    O curador do evento literário, Jorge Reis-Sá, garante que não se trata de um aceno exclusivo à comunidade brasileira. “Nós queremos atrair toda a gente, portugueses e brasileiros”, disse. Sua ideia é que todos desfrutem de literatura de qualidade em língua portuguesa, independente do lado do Atlântico em que a obra foi produzida.


    Jornadas do Patrimônio Europeu: Jaildo Marinho evoca memórias do sertão e traz leveza ao mármore Sep 19, 2026
    Show notes

    Acontecem neste sábado (19) e domingo (20) as Jornadas Europeias do Patrimônio. O evento abre ao público milhares de lugares, muitos deles normalmente inacessíveis, propondo visitas, exposições, encontros e outras atividades voltadas à descoberta e à preservação do patrimônio histórico do continente. O brasileiro Jaildo Marinho expõe esculturas em mármore evocando lavadeiras de sua infância no sertão pernambucano.

    Na França, a 43ª edição do evento traz como temas "Patrimônio da fotografia" e "Patrimônio em perigo: reavivar, resistir, reinventar", em um ano que coincide com as celebrações dos 200 anos da fotografia. Em todo o país, a programação reúne habitualmente mais de 25.000 animações e eventos em cerca de 16.000 locais e monumentos históricos.

    Entre os espaços de destaque abertos à visitação está a Orangerie do Domaine National de Meudon, um edifício histórico, antiga propriedade real, onde acontece a exposição Étendre le marbre ("Estender o mármore"), do artista pernambucano Jaildo Marinho.

    A mostra estabelece uma ponte poética entre a criação artística contemporânea e a memória social da cidade. Nos séculos XIX e início do XX, Meudon destacou-se como um importante centro de lavanderia da região parisiense, onde gerações de lavadeiras lavavam e secavam as roupas destinadas à capital.

    Inspirando-se na história dos antigos barcos de lavagem de roupas de Meudon e em suas próprias memórias de infância, Jaildo recorda a origem afetiva do projeto:

    "Tudo surgiu a partir da minha memória em relação à minha avó que lavava roupa para outras pessoas lá no sertão de Pernambuco. Ficou na minha memória aqueles lençóis grandes, brancos, estendidos no varal."

    Para transformar essa lembrança em arte e desconstruir a rigidez do material, o escultor criou peças em mármore atravessadas por dobras monumentais. "Aí me veio a ideia a partir dessa memória da leveza do mármore, que a gente vê o mármore sempre como uma coisa pesada. Eu transformei o que é pesado em leve e suspendi o mármore como um tecido e ficar sempre naquela expectativa: ele vai cair ou não vai cair, o vento balança ou não balança."

    "Eu adicionei a tinta acrílica porque a cor vem representar a vida, que é um tempo determinado, limitado. Eu jogo com isso, com o peso, com a leveza, com o tempo e com a vida", complementa.

    Natural de Santa Maria da Boa Vista, ele conta que sempre gostou de fazer escultura, desde criança. "Comecei com manuseio do barro, depois fiz estudo técnico sobre gemologia e lapidação de pedras preciosas e semipreciosas que existiam na região", relembra.

    Após estudar escultura na Universidade Federal de Pernambuco, estabeleceu-se na capital francesa aos 22 anos.

    A exposição Étendre le marbre pode ser visitada de 3 a 27 de setembro de 2026, de quinta-feira a domingo, das 14h às 19h, com entrada gratuita na Orangerie do Domaine national de Meudon, contando também com a presença do artista para visitas guiadas durante a programação.


    Estudantes estrangeiros enfrentam crise de moradia em Paris Sep 12, 2026
    Show notes

    Encontrar um apartamento em Paris virou uma corrida de obstáculos para estudantes estrangeiros, que enfrentam exigência de fiadores franceses, aluguéis em alta e uma oferta de imóveis cada vez mais reduzida.

    Vitória Barreto para RFI Brasil

    Entre golpes on-line, seguros pagos para servir de garantia e o fim do auxílio-moradia para quem não tem bolsa do governo francês, universitários relatam a saga de enfrentar a burocracia para conseguir um teto na capital francesa. A RFI ouviu três estudantes estrangeiros que encontraram formas diferentes de vencer essa maratona.

    Procurar um apartamento em Paris é um drama para muitos estudantes. Depois de provas e longos processos de aplicação para as universidades do país, o mais temido dos desafios é encontrar um teto.

    A demanda por um pequeno estúdio charmoso na capital francesa já aumentou 4,3% em um ano. Segundo um estudo de 110 mil ofertas e demandas de moradias pelo serviço de aluguel LocService, registradas no último ano, um terço dos estudantes na França procura um imóvel na região parisiense.

    Já é uma guerra conseguir um apartamento como francês, mas para estudantes estrangeiros pode ser uma odisseia longa e cara encontrar onde morar.

    Exigências

    Proprietários exigem uma série de documentos, como comprovantes de renda e, muitas vezes, um fiador francês, e, em alguns casos, aceitam os pais estrangeiros.

    Amanda é um exemplo dessa longa trajetória para encontrar um lar fixo. A estudante brasileira se mudou para Paris para fazer um mestrado e, em dois anos e meio, trocou de apartamento quatro vezes, quase sempre em sublocações, incluindo um ano num apartamento em que a proprietária se recusou a fornecer documentos formais, o que complicou a renovação do visto da aluna.

    Agora, sem um emprego fixo, ela finalmente fechou um contrato de aluguel de longo prazo: um estúdio de 18 m² no centro da cidade, por 700 euros (cerca de 4 mil reais). Para isso, comprovou renda de trabalhos temporários e pediu ao pai que assinasse como fiador.

    "Como estudante, eu sempre fui mostrar que eu era bolsista, que eu recebia um salário. Só que, nesse caso, o que me fez conseguir foi eu ter tido uma conversa franca com meu pai, que não me sustenta há muitos anos. [...] vou precisar da sua assinatura para um termo dizendo que você se responsabiliza financeiramente por mim", explicou Amanda.

    Existem alternativas ao fiador tradicional. O Visale, por exemplo, é uma garantia gratuita oferecida pelo governo francês: se o estudante não conseguir pagar o aluguel, o programa cobre a dívida junto ao proprietário e depois cobra o valor do locatário. Já o GarantMe funciona de forma semelhante, mas é um serviço privado e pago, que pode sair bem caro.

    Nos dois casos, o estudante ainda precisa comprovar sua capacidade financeira, geralmente apresentando informações sobre a renda dos pais e o apoio financeiro que recebe deles. Isso ajuda a demonstrar ao proprietário que haverá recursos suficientes para cobrir o aluguel todos os meses, reduzindo o risco de inadimplência.

    Corrida contra o tempo entre o Visale e o GarantMe

    O estudante suíço Dominik viveu esse dilema na prática; sabe bem o custo da crise imobiliária e quão importantes são esses documentos para muitos proprietários. Enquanto esperava pelo Visale, o fiador gratuito do governo, que pode demorar para avaliar o dossiê do locatário, ele acabou pagando pelo GarantMe para não perder o apartamento que estava fechando contrato.

    "Mandei mensagem para mais de 80 pessoas. A maioria nem respondeu. Recebi talvez umas dez respostas e consegui visitar apenas três apartamentos,” afirmou Dominik.

    Os 200 anúncios mais populares em Paris recebem, em média, mais de 700 mensagens por imóvel em poucos dias, segundo o site francês de aluguel direto com o proprietário, Particulier à Particulier.

    Então, para ir contra essa estatística e conseguir um estúdio de 12 m², por 800 euros (cerca de 5 mil reais), o mestrando pagou pelo seguro do GarantMe por 500 euros (cerca de 3 mil reais).

    E a hospedagem no Airbnb, durante o mês de procura, custou 1.200 euros, equivalente a mais de 7 mil reais.

    Mas Dominik explica que valeu a pena passar pela burocracia e conseguiu o apartamento que desejava.

    “Morar em Paris e ter o seu próprio apartamento acaba sendo uma conquista. Acaba sendo uma experiência que aproxima as pessoas na cidade."

    Do golpe online ao fim do auxílio-moradia

    Como muitos estudantes, Lyubov, cazaque, que fez a graduação no norte da França, começou a procurar moradia para o mestrado em Paris ainda à distância. Durante a busca, quase caiu no golpe de um anúncio falso.

    “Eu cheguei a enviar meus documentos para o que parecia ser um anúncio de aluguel. Só depois percebi que era um golpe. Felizmente, não perdi dinheiro, mas fiquei muito preocupada, porque eram dados pessoais. Minha identidade, informações sobre mim e meus pais.”

    Em 2026, esse tipo de fraude registrou um aumento entre 20% e 30%, segundo o portal oficial do governo francês dedicado à prevenção e ao combate a crimes cibernéticos.

    Hoje, Lyubov paga 650 euros, quase 4 mil reais, por um quarto de 8 m² dentro de uma residência num subúrbio de Paris.

    Desde uma lei aprovada em maio, alunos estrangeiros sem bolsa do governo francês perderam o acesso ao auxílio-moradia.

    "Como estudante de um país fora da União Europeia, os aluguéis já pesam no orçamento. E, quando vi que ia mudar para uma cidade maior, descobri que perdi também a ajuda do Estado. Não tinha muito o que fazer, porque a lei já foi aprovada e já está em vigor. Mas fiquei decepcionada, porque contava com essa ajuda. Vou ter que conciliar os estudos com um trabalho de meio período. Acho que vai ser difícil, principalmente porque acabei de começar o mestrado."

    O fim de incentivos fiscais para investidores e a dificuldade crescente dos franceses para comprar a casa própria ajudaram a reduzir a oferta de imóveis para aluguel em Paris.

    O número de imóveis disponíveis para aluguel caiu 37% nos últimos sete anos na capital francesa, segundo dados da plataforma Bien'ici, publicados no jornal francês France-inf


    25 anos depois, sobreviventes do 11 de Setembro ainda sofrem efeitos da exposição no Marco Zero Sep 11, 2026
    Show notes

    Aristide Economopoulos, fotógrafo e fotojornalista americano radicado na região metropolitana de Nova York que registrou os ataques às Torres Gêmeas, recebeu neste ano o diagnóstico de câncer de próstata. Novos documentos mostram que vestígios de amianto ainda eram encontrados na área do World Trade Center dez meses após a tragédia.

    Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York

    Ele tinha 30 anos e havia acabado de chegar a Nova York quando, na manhã de 11 de setembro de 2001, recebeu a missão que mudaria sua vida. Fotógrafo, Economopoulos nunca tinha estado na região sul de Manhattan, onde ficavam as torres do World Trade Center.

    Vinte e cinco anos depois, as consequências daquela manhã ainda fazem parte de sua vida. Em maio deste ano, Economopoulos foi diagnosticado com câncer de próstata, uma das doenças associadas à exposição às substâncias tóxicas liberadas no colapso das Torres Gêmeas.

    “No início de julho, passei por uma cirurgia e agora, dois meses depois, tudo indica que eu possa estar livre do câncer”, contou.

    A história de Economopoulos é também um retrato de uma dimensão do 11 de Setembro que se estendeu muito além das quase 3 mil mortes provocadas diretamente pelos ataques. Milhares de socorristas, trabalhadores, jornalistas, moradores e outras pessoas expostas à poeira e aos destroços do Marco Zero, inclusive brasileiros, desenvolveram doenças ao longo das décadas seguintes.

    Uma ligação às 8h22

    Economopoulos lembra com precisão de como começou aquele 11 de setembro. “O dia começa às 8h22. Eu sei exatamente o horário porque minha mãe me ligou e eu pensei: ‘Por que você está me ligando tão cedo?’”, recorda.

    Ele voltou para a cama. Cerca de meia hora depois, o telefone tocou novamente.

    “Por volta das 8h52, recebo uma ligação do meu editor: ‘Um avião atingiu a torre’. Eu penso que deve ser um Cessna, algum avião pequeno, sabe?”

    A dimensão do que estava acontecendo ainda não estava clara. Enquanto milhares de pessoas tentavam deixar Manhattan, Economopoulos recebeu a missão de fazer o caminho contrário.

    De Jersey City, em Nova Jersey, pegou uma balsa em direção à região do World Trade Center. Coberto pela poeira dos escombros, registrou com sua câmera cenas de uma manhã em que o céu do centro financeiro de Nova York foi tomado por uma enorme nuvem de fumaça, cinzas e destroços.

    Pouco antes da queda da Torre Norte, Economopoulos encontrou outro fotógrafo que trabalhava na área. Os dois nunca haviam se visto antes. Ao saber que Aristide estava ficando sem filme, o colega lhe entregou um dos dois últimos rolos que ainda tinha.

    Deu apenas um conselho: “Shoot smart” – algo como “fotografe com inteligência”, escolhendo cuidadosamente cada imagem. Pouco depois, os dois seguiram caminhos diferentes.

    “Eu comecei a andar um pouco mais para o norte. Foi quando a Torre Norte desabou, e ele achou que eu tinha ficado soterrado nos escombros”, conta.

    Consequências em etapas

    Os primeiros efeitos da exposição apareceram imediatamente. No dia do ataque, o fotógrafo sofreu lesões nos olhos provocadas pela poeira e os destroços.

    “Eu perdi parcialmente a camada mais superficial da córnea do olho direito e tive uma lesão bem grave no olho esquerdo”, relata.

    A visão ficou comprometida durante alguns dias. O impacto, no entanto, não foi apenas físico. Nos anos seguintes, Economopoulos também buscou ajuda profissional para lidar com o trauma provocado pelo que havia testemunhado.

    Durante décadas, ele não procurou os programas de assistência destinados às pessoas afetadas pelo 11 de Setembro. Isso mudou neste ano, quando recebeu o diagnóstico de câncer de próstata.

    A doença está entre os tipos de câncer associados à exposição no World Trade Center e cobertos pelo programa federal criado para acompanhar e tratar pessoas afetadas pelos ataques.

    O câncer de pele não melanoma é o mais comum entre socorristas e civis expostos às substâncias tóxicas do Marco Zero, com 18.380 casos. Em seguida aparecem o câncer de próstata, com 13.170 casos; o câncer de mama em mulheres, com 4.830; o melanoma, com 3.860; e o linfoma, com 2.560 casos, segundo dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) atualizados até 30 de junho.

    Fotografias se transformaram em provas

    As imagens registradas por Economopoulos naquele dia também acabaram adquirindo uma função que o fotógrafo não poderia imaginar quando apertou o obturador. Anos depois, algumas delas serviram para comprovar que pessoas que desenvolveram doenças associadas ao 11 de Setembro realmente estiveram na área contaminada.

    Ao mostrar uma de suas fotografias, Economopoulos aponta para três homens cobertos de poeira caminhando pelas ruas de Manhattan. Um deles se chamava Frank.

    “Ele morreu de câncer de pâncreas, que é um dos tipos de câncer associados ao 11 de Setembro. Anos depois, recebi uma ligação de um advogado que representava a família. Eles estavam entrando com um pedido de indenização para vítimas, mas precisavam provar que ele tinha estado lá.”

    A fotografia feita por Economopoulos ajudou a demonstrar exatamente isso.

    Marco Zero teve o ar contaminado

    Documentos recém-revelados também lançam nova luz sobre a extensão da contaminação na região do World Trade Center. Após o 11 de Setembro, moradores de Nova York receberam repetidas garantias de que era seguro respirar o ar nas proximidades das torres destruídas. Mas registros obtidos pelo The New York Times mostram que, dez meses depois dos ataques, autoridades de saúde ainda encontravam vestígios de amianto a até cerca de 800 metros do local.

    Os documentos fazem parte de mais de 170 mil páginas de relatórios sobre qualidade do ar, registros de contaminação e correspondências entre autoridades municipais. Segundo autoridades da cidade, o material permaneceu armazenado em caixas em um escritório municipal, fora do alcance do público por mais de duas décadas, e só foi descoberto no ano passado.

    A documentação acrescenta uma nova dimensão às dúvidas sobre os riscos aos quais foram expostas as milhares de pessoas que trabalharam, viveram ou participaram das operações de resgate e recuperação na região.

    Além das 2.753 pessoas mortas no World Trade Center no dia dos ataques, outras 9.677 morreram, nos 25 anos seguintes, de doenças relacionadas ao atentado, segundo dados do Fundo de Compensação das Vítimas, atualizados até 31 de julho deste ano.

    Jovens desconhecem o trauma

    Para Economopoulos, as consequências que continuam aparecendo duas décadas e meia depois são também uma razão para preservar a memória do 11 de Setembro. “O que me incomoda é que, 25 anos depois, existe toda uma geração que não sabe o que aquele dia representou”, afirma.

    Uma geração inteira nasceu depois das imagens que Economopoulos registrou com os rolos de filme que conseguiu naquela manhã. Ao relembrar o atentado, ele diz que preservar essa história significa não apenas recordar o horror provocado pelos ataques, mas também aqueles que morreram e as pessoas que arriscaram a própria vida para ajudar desconhecidos.

    “Naquele dia, vimos o melhor da humanidade e também o pior dela.”


    Cerâmica do Vale do Jequitinhonha chega a Paris com força feminina e leitura contemporânea Sep 10, 2026
    Show notes

    A exposição A Terra Modelada Pela Arte, aberta na quarta-feira (9) na Galeria Ricardo Fernandes, no Marais, apresenta em Paris a cerâmica do Vale do Jequitinhonha, tradição mineira marcada por técnicas transmitidas entre gerações, sobretudo por mulheres. Com 17 artistas do Coletivo do Vale, a mostra destaca a linhagem iniciada por Izabel Mendes da Cunha e reúne obras que combinam memória, identidade territorial e criação contemporânea.

    A exposição A Terra Modelada Pela Arte leva à capital francesa a cerâmica do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, em leitura assumidamente contemporânea. São 17 artistas reunidos em torno de uma tradição que nasceu em comunidades rurais e hoje ocupa espaço em circuito internacional de arte.

    O Vale do Jequitinhonha, no nordeste mineiro, costuma aparecer nas estatísticas por seus indicadores socioeconômicos desfavoráveis. Mas, muito antes de qualquer política pública, já havia ali uma prática consolidada de modelagem do barro, transmitida entre mulheres, dentro de casa, como parte da rotina.

    É nesse contexto que se inscreve a trajetória de Izabel Mendes da Cunha (1924–2014). Nascida em Itinga, ela aprendeu a trabalhar com o barro com a mãe e, inicialmente, produzia moringas para complementar a renda familiar. Ao longo dos anos, passou a transformar esses objetos utilitários em esculturas femininas de grande presença visual, criando as célebres bonecas-moringas que se tornariam sua assinatura artística.

    A curadoria de Ricardo Fernandes parte dessa história para reposicionar a cerâmica da região. “Eu já venho pesquisando arte popular brasileira há muitos anos e penso que a arte popular brasileira é a origem da nossa expressão artística atual, principalmente no âmbito da arte contemporânea”, afirma. Para ele, a distinção rígida entre artesanato e arte não dá conta do processo criativo dessas comunidades.

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    Arte popular em chave contemporânea

    Fernandes chama atenção para a dimensão feminina dessa tradição e lembra que a história do Vale começa com mulheres em situação de sobrevivência, que transformam o barro em renda e, depois, em afirmação estética. “Eu acho que essas bonecas mesclam resistência e se tornam resiliência. A resistência são duas forças opostas e a resiliência é quando uma encontra penetração na outra, quando uma consegue conciliar com a outra essas duas forças e criar algo positivo”, diz. Para ele, as bonecas representam esse movimento: “Elas criam uma verdadeira escola do saber, do conhecer.”

    Entre os artistas presentes em Paris está Augustto Ribeiro, que participa pela primeira vez de uma exposição internacional. Ele começou a trabalhar com barro aos quatro anos de idade. “A inspiração vem desde cedo. Minha mãe e minha tia foram minhas mestras, a Dona Izabel também, que foi quem iniciou, foi a anfitriã da arte dessas bonecas, foi quem criou, pela primeira vez, de uma moringa utilitária a cabeça de uma dessas obras”, diz.

    Hoje, aos 27 anos, ele tenta preservar a sensibilidade da infância no trabalho. “Quando eu era criança, não tinha muita distinção de pessoas para as bonecas, eu via elas com a mesma energia de uma pessoa, tanto que quando acontecia alguma quebra numa queima, eu chorava como se um parente tivesse falecido”, lembra.

    Da comunidade de Campo Buriti, na Associação dos Artesãos de Coqueiro Campo, Adriana Gomes Xavier reforça a centralidade das mulheres na construção estética do Vale. “A gente se inspira nas mulheres do Vale. Inspira muito nas roupas das mulheres para fazer os vestidos das bonecas, no rosto também”, afirma.

    Quatro gerações de barro

    Da comunidade de Santana do Araçuaí, Andréia Andrade traz a perspectiva de quem nasceu dentro da linhagem iniciada por Izabel Mendes da Cunha. “Eu falo que tive o privilégio de nascer em berço de barro. Que a minha avó, a nossa grande ceramista do Vale do Jequitinhonha, a Izabel Mendes, abriu todas as portas dessa tradição de fazer as bonecas de barro”, afirma.

    Para Andréia, estar em Paris é extensão de uma história familiar. “Para mim é um privilégio, uma honra estar nessa família e que a gente contar a nossa história e trazer a tradição dessas bonecas do Vale, que são peças que a gente representa sentimentos, que traz toda a beleza do Vale do Jequitinhonha através do barro”, diz. “É a quarta geração da minha família fazendo as bonecas, as noivas, mas cada uma com a sua identidade.”

    Ela destaca o uso de materiais simples, oferecidos pela natureza. “A gente só trabalha com pigmentos naturais, de vários pigmentos do próprio barro, que tem várias cores. São pedrinhas que a gente cata para poder tirar os pigmentos, vermelho, amarelo”, explica. “A natureza nos oferece tudo, né, para a gente criar.”

    De Cachoeira do Fanado, Alice Costa resume o que considera essencial na criação. “Não pode faltar espontaneidade”, afirma. “A pessoa tem que estar bem ciente do que ela vai fazer, né? Ela vai fazer uma boneca, traça o jeito da boneca. A gente costuma dizer que as bonecas são parecidas muito com cada artesã, têm o traço de cada artesã.”

    Trabalho, renda e permanência

    A cerâmica do Vale não mudou apenas a paisagem estética da região, mas também a vida das comunidades. Priscila Lins, gerente de Agronegócios e Artesanato do Sebrae Minas, que acompanha esse processo há duas décadas, aponta mudanças concretas. “Muita coisa mudou de 20 anos para cá. Os maridos não vão embora mais, os filhos não saem das casas e a arte delas, estando aqui hoje, quer dizer que muita coisa mudou na vida delas”, diz.

    Da cidade de Turmalina, Anísia Lima lembra o período em que as peças não tinham mercado. “A gente fazia as peças, não eram tão valorizadas, às vezes ficava muito tempo sem vender”, conta. “Há uns 20 anos, se fosse alguém lá e perguntasse qual era a dificuldade da comunidade, a gente queria mercado, queria expor as peças e vender.”

    Para Andréia Andrade, estar na França é também reconhecimento de um percurso coletivo. “A gente fica muito feliz de estar podendo participar de uma exposição na França. É um privilégio a gente sair do Vale e mostrar a nossa riqueza para Paris”, diz. “Eu me sinto muito honrada de estar fazendo parte dessa exposição. É uma honra e uma responsabilidade muito grande.”

    A exposição A Terra Modelada Pela Arte fica em cartaz até 18 de setembro na Galeria Ricardo Fernandes, em Paris..


    França aposta no Brasil para expandir rede de ensino no exterior, mas plano divide governo e sindicatos Sep 09, 2026
    Show notes

    A França quer ampliar sua presença educacional no mundo e enxerga o Brasil como um dos países prioritários dessa estratégia. No centro desse projeto está a reforma da Agência para o Ensino Francês no Exterior (AEFE), responsável por uma rede de mais de 600 estabelecimentos em 138 países, que atende cerca de 400 mil alunos. Criada há quase quatro décadas, a agência é um dos principais instrumentos da diplomacia de influência francesa. Mas seu futuro virou tema de um intenso debate político na França.

    Parlamentares, sindicatos e associações de pais discutem como expandir a rede internacional sem comprometer sua sustentabilidade financeira ou aumentar excessivamente os custos para as famílias e sem descaracterizar um modelo que ajudou a consolidar a presença cultural e educacional francesa em dezenas de países.

    O debate ganhou força após críticas ao modelo de crescimento adotado nos últimos anos. Como destacou uma reportagem do jornal Le Monde, desde que o presidente Emmanuel Macron lançou, em 2018, a meta de dobrar o número de alunos matriculados na rede até 2030, a expansão passou a depender cada vez mais dos chamados estabelecimentos parceiros, já que os recursos públicos destinados à AEFE não acompanharam o crescimento.

    Para Xavier Auger, secretário-geral do sindicato CFDT Éducation Monde, que representa profissionais das escolas de gestão direta da AEFE em uma das principais centrais sindicais da França, a expansão está sendo conduzida sem as verbas necessárias. "A estratégia de aumento do número de alunos está sendo realizada sem qualquer acréscimo no financiamento público. Pelo contrário, há uma redução dessa verba", afirma.

    Segundo ele, a agência também foi obrigada a absorver custos adicionais relacionados às aposentadorias dos funcionários públicos franceses enviados para atuar na rede no exterior.

    "Esse custo é repassado diretamente e distribuído entre as diferentes escolas, o que provoca um aumento expressivo, entre 5% e 15%, nas mensalidades pagas pelos pais. Isso resulta em uma fragilização dos estabelecimentos de ensino e da própria rede", opina Auger.

    O secretário-geral do sindicato CFDT Éducation Monde também critica a redução do número de professores enviados pela França para atuar no exterior: "Esta reforma é acompanhada por uma redução drástica no número de postos de professores enviados pela Educação Nacional francesa".

    Para o sindicalista, o modelo enfraquece gradualmente a vocação de serviço público da AEFE e aumenta o risco de dependência de operadores privados para garantir o crescimento da rede. Ele alerta ainda para dificuldades de formação e recrutamento de docentes, e teme que isso possa afetar a qualidade pedagógica oferecida pelas escolas.

    Governo fala em modernização e estratégia internacional

    O governo francês argumenta que quer aumentar subvenções para a presença dos liceus (ensino médio) em países considerados prioritários. Algo que, na época da criação da agência, não teria sido pensado de forma estratégica. Além do Brasil, entre os países no centro da reforma da rede de liceus franceses da AEFE estão Estados Unidos, Costa do Marfim, Nigéria, República Democrática do Congo e Egito.

    Para a ministra encarregada da Francofonia, Parcerias Internacionais e dos Franceses do Exterior, Éléonore Caroit, a reforma é uma modernização necessária para adaptar a agência às transformações demográficas e educacionais das últimas décadas.

    "O que está acontecendo hoje não é uma crise da AEFE, mas uma reforma desejada, decidida pelo governo, porque é uma agência do Estado que recebe o maior financiamento do meu ministério", afirma Éléonore Caroit.

    Segundo a ministra, a rede de ensino no exterior constitui uma das principais ferramentas da política externa francesa. "Para nós, esta é a política exterior mais importante; é uma política de influência, de transmissão da francofonia, dos valores da educação francesa".

    No entanto, ela compreende as preocupações levantadas pelos mais críticos às mudanças. "Eu entendo que toda reforma pode ser vista com certa preocupação e que é muito importante falar, ouvir e trabalhar com todo o ecossistema, o que nós estamos fazendo", diz.

    Brasil entre os países prioritários

    Dentro dessa nova reforma, o Brasil aparece entre os chamados países prioritários identificados pelas autoridades francesas para o desenvolvimento da rede. Caroit detalha que a intenção é reforçar a atuação francesa em mercados considerados estratégicos para a francofonia e para a influência cultural da França.

    A ministra também rebate críticas sobre um eventual aumento generalizado das mensalidades. Ela conta que o objetivo é oferecer previsibilidade às famílias interessadas na educação francesa. "A ideia da reforma é garantir a todo pai, seja francês ou estrangeiro, que decida escolher o ensino francês para seus filhos, saber quanto esse ensino vai custar a longo prazo."

    Éléonore Caroit garante que bolsas escolares destinadas às famílias francesas continuarão sendo financiadas pelo governo.

    Liceu Francês de São Paulo aposta em crescimento gradual

    Um dos maiores estabelecimentos da rede na América Latina e o maior do Brasil, o Liceu Internacional Francês de São Paulo registrou mais 36% de procura por vagas nos últimos semestres letivos e pretende aumentar o número de alunos de 1.250 para 1.500 em 2027, após passar por uma fase de fortalecimento com mudanças administrativas ocorridas nos últimos anos.

    Bruno Hirm-Martin, diretor da instituição, defende melhorias de base para um crescimento qualitativo da unidade. "O projeto da Fundação do Liceu Francês de São Paulo e da AEFE é desenvolver o liceu aqui em São Paulo. Mas primeiro quisemos fortalecer o estabelecimento de ensino, que estava em dificuldades financeiras devido à cisão da antiga mantenedora. Vamos primeiro desenvolver os prédios e a oferta educativa, com o objetivo de crescimento de alunos qualitativo. Pois queremos primeiro a capacitação dos funcionários e dos professores", destaca.

    Ele confirma que o governo francês vê o Brasil como um potencial mercado de expansão de sua rede de influência por meio da educação. "O Ministério e a agência decidiram focar em 11 países prioritários, entre os quais está o Brasil. A França considerou e segue considerando que o Brasil tem um potencial para desenvolver o ensino francês”, indica.

    O caso brasileiro ilustra um dos principais dilemas enfrentados atualmente pela AEFE. De um lado, a demanda crescente pelo ensino francês e a ambição de ampliar a influência da França em países estratégicos. De outro, as críticas de sindicatos e parte dos parlamentares, que temem que a expansão da rede dependa cada vez mais de operadores privados e de um enfraquecimento gradual do modelo historicamente associado ao serviço público francês no exterior.


    Brasileiros residentes no sul da França poderão votar em Marselha nas eleições de outubro Sep 03, 2026
    Show notes

    Pela primeira vez, os brasileiros residentes na França terão uma nova opção de local de votação nas eleições brasileiras. Além de Paris, os eleitores terão a opção de Marselha, segunda maior cidade francesa e sede, desde 2024, de um segundo consulado-geral do Brasil. A novidade atende a uma demanda antiga da comunidade brasileira instalada no sul do país europeu.

    Maria Paula Carvalho, da RFI

    Segundo a cônsul-geral do Brasil em Marselha, Vera Cíntia Alvarez, os preparativos para a realização do pleito estão em fase avançada.

    "Já há quase um mês estamos fazendo os cursos que o Tribunal Superior Eleitoral nos disponibiliza e já recebemos parte das urnas. Estamos muito entusiasmados e contentes com esse momento de reunir a comunidade brasileira aqui no nosso consulado", afirmou.

    De acordo com a cônsul, 2.669 eleitores estão inscritos para votar na nova zona eleitoral. A expectativa é receber entre 1.300 e 1.500 votantes.

    "Geralmente as pessoas se inscrevem, mas depois a vida vai acontecendo e acaba aparecendo cerca de 50% dos inscritos", explicou.

    Para atender os eleitores, serão instaladas sete seções eleitorais, com quatro urnas eletrônicas. Ao todo, 24 mesários e agentes eleitorais atuarão no dia da votação.

    "Também há muita gente que chega até nós querendo colaborar de alguma forma", destacou Alvarez.

    A criação da zona eleitoral em Marselha foi recebida com entusiasmo pela comunidade brasileira da região. Segundo a cônsul, muitos eleitores comemoram a possibilidade de exercer o direito ao voto sem precisar se deslocar até a capital francesa.

    Votar mais perto, com menos custos

    Uma das beneficiadas pela mudança é a professora de português Fabiana de Albuquerque, que mora em Nîmes, na região da Occitânia, há dez anos. Para ela, votar em Marselha representa uma economia significativa de tempo e dinheiro.

    "É muito mais prático, muito mais rápido e até mais econômico, porque eu posso ir de trem ou de carro. O trem de Nîmes para Paris é bem mais caro do que ir a Marselha", relatou.

    "Para mim é muito importante, não só como cidadã brasileira que vive fora. É um poder e uma conquista tardia na nossa história enquanto República, pois nós mulheres votamos há pouco tempo. É muito importante porque garante o nosso direito e a nossa cidadania", afirmou.

    Além do aspecto político, ela destaca o caráter de confraternização que costuma marcar os dias de eleição entre os brasileiros que vivem na França.

    "A gente espera esse dia ansiosamente, porque é um reencontro da brasilidade. Nos anos anteriores, quando íamos a Paris, sempre tinha amigos tocando música brasileira, amigas vendendo comida brasileira. Era muito festivo, muito alegre, e estamos com a mesma expectativa para Marselha em outubro, de reencontro de todo mundo que mora no Sul", contou.

    Democracia além do dia da eleição

    Fabrício Pereira, marido de Fabiana, também inscrito para votar em Marselha, acredita que a descentralização da votação facilitará a participação dos eleitores.

    "Isso garante que a gente tenha maior facilidade de votar nos dois turnos. É mais fácil de locomoção e talvez também na questão das filas. Na eleição anterior, a fila estava enorme, com quatro a cinco horas de espera", lembrou o professor e engenheiro hospitalar baseado no Centro Hospitalar Universitário (CHU) do Hospital Caremeau, de NÎmes.

    Para ele, o exercício do voto mantém o vínculo dos brasileiros no exterior com a vida política do país.

    "É a forma como a gente consegue de opinar sobre os próximos dirigentes. Infelizmente, aqui na França, é somente a eleição para presidente. Mas ainda assim ela é importante, é fundamental porque isso mantém alguma identidade nacional e algum tipo de atuação na política nacional brasileira", avaliou.

    A votação ocorrerá nas instalações do consulado-geral do Brasil em Marselha, localizado na Avenida Robert Schuman, nº 56, próximo à Place de la Joliette. Segundo Vera Cíntia Alvarez, a estrutura do local permitirá receber os eleitores com conforto.

    "É um imóvel bastante grande e nós temos corredores para fazer fila, salas amplas para poder abrigar até duas seções, se for necessário. Venham votar, porque vai ser uma grande festa cívica e democrática", convidou.

    A Justiça Eleitoral lembra que os dois turnos são considerados eleições independentes. Assim, o eleitor que não votar no primeiro turno poderá participar normalmente do segundo.

    O voto é obrigatório para brasileiros aptos a votar, inclusive no exterior. Quem não comparecer deverá justificar a ausência para evitar pendências junto à Justiça Eleitoral. A justificativa pode ser feita pelos canais digitais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no dia da votação ou até 60 dias após cada turno.


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