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    Reportagem

    Confira aqui as análises, entrevistas e repercussões de notícias que você pode ouvir e baixar. As reportagens +RFI propõem a cobertura de eventos importantes no mundo inteiro feita pelos repórteres e correspondentes da Rádio França Internacional.

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    Latest Episodes:
    Festival de Veneza começa com coprodução brasileira ‘Retorno a Buenos Aires’ na disputa Sep 02, 2026
    Show notes

    A coprodução brasileira ‘Retorno a Buenos Aires’ está na disputa pelo Leão de Ouro do importante Festival de Veneza de 2026, que começa nesta quarta-feira (2). O longa é dirigido pelo ítalo-chileno Marco Bechis, que viveu entre a Argentina, o Brasil e a Itália.

    “Retorno a Buenos Aires” acompanha a volta de Mariano Guerra à Argentina depois de 33 anos vivendo na Itália. Ele regressa ao país para depor no julgamento dos ex-militares que o sequestraram, torturaram e escravizaram durante a ditadura militar.

    O filme de Marco Bechis é uma coprodução da Itália e do Brasil. Pelo lado brasileiro, três produtores assinam o longa: Patrick de Jongh, da 34 Filmes, Cibele Amaral, da Neocórtex, e André Ristum. O filme é estrelado pelo italiano Adriano Giannini e conta, entre outros atores, com os brasileiros Paula Cohen e Eduardo Hoy em papéis de destaque.

    O diretor de “Terra Vermelha” e “Garage Olimpo” retoma, com essa nova obra, “um pouco as suas origens, ao abordar essa temática tão significativa e tão importante em toda a vida e na formação dele”, destaca André Ristum, amigo de Marco Bechis, que deu o pontapé inicial para a realização do projeto.

    “A gente estava tendo a volta dos financiamentos no Brasil e, depois de ter lido o roteiro maravilhoso, eu apresentei para o Patrick e para a Cibele. Eles adoraram e nasceu essa relação, esse casamento em torno desse projeto que está sendo realmente muito feliz”, lembra.

    Tema importante para o Brasil

    Patrick de Jongh é o fundador e diretor da 34 Filmes. A produtora independente de Brasília venceu o edital de coprodução internacional de 2024 da Ancine para financiar o filme que trata, segundo ele, de um tema importante para o Brasil.

    “Os tribunais militares aconteceram na Argentina, mas acabaram não acontecendo no Brasil. Eu acho que é uma maneira de trazer esse assunto à tona de novo, justamente em vista de tudo o que tem acontecido após a polarização política dos últimos anos no Brasil”, diz.

    A seleção para Veneza consolida a atuação internacional da 34 Filmes e coloca Brasília pela primeira vez no mapa do cinema mundial.

    “Nosso objetivo não é só uma estratégia da produtora de abraçar essas coproduções internacionais, mas também sacramentar essa estratégia federal dos arranjos regionais. A gente ganhou o edital pela cota regional e ter conseguido, já de cara, colocar o filme num festival tão importante só mostra que esses programas precisam continuar. Investir nesses mercados fora do eixo Rio-São Paulo é importantíssimo. São novas narrativas, novas possibilidades, para trazer um outro Brasil também para o mundo”, ressalta Patrick de Jongh.

    Política pública de sucesso

    “Retorno a Buenos Aires” é o único representante brasileiro na competição principal de Veneza. Em Cannes, em maio, o Brasil também só esteve presente na disputa pela Palma de Ouro com coproduções internacionais. Cibele Amaral, da Neocórtex, acredita que essa política de coproduções internacionais é uma estratégia de sucesso.

    “Hoje em dia, você precisa fazer um pacote realmente poderoso para ter êxito de bilheteria e também nos festivais. Esse modelo de coprodução traz uma força grande para o projeto e, com certeza, traz o Brasil para um protagonismo. É uma política pública que está dando seus resultados”, avalia.

    O filme de Marco Bechis custou € 2,5 milhões, financiados majoritariamente por quatro produtoras italianas: Fandango, 39Films, Karta Film e Rai Cinema. O Brasil entrou com € 700 mil (R$ 4,2 milhões), cerca de 25% do total, e o retorno para a indústria cinematográfica do país já foi significativo.

    O longa se passa na Argentina, mas foi rodado durante quatro semanas em Porto Alegre, no Brasil, e mais três semanas em Turim, no norte da Itália, com participação destacada de técnicos, atores e atrizes brasileiros. Paula Cohen, filha de uruguaios, faz o papel da juíza no processo dos ex-militares argentinos.

    “Eu fui criada entre esses países e foi muito especial. O Marco foi sequestrado, foi torturado. Ele viveu essa história muito de perto. Ele é um diretor excepcional e trabalhar com ele, ouvi-lo, foi, para mim, realmente um aprendizado maravilhoso. Acho que me expandi como atriz nesse projeto”, revela a atriz.

    Paula Cohen participa pela primeira vez do Festival de Veneza. Ela está “felicíssima” por estar na disputa “contando essa história tão importante, tão necessária de ser contada”, salienta.

    Estreia mundial

    A coprodução brasileira “Retorno a Buenos Aires” integra uma lista de 21 filmes assinados por grandes nomes do cinema mundial que concorrem ao prestigioso Leão de Ouro do Festival de Veneza. Entre os concorrentes estão diretores como o britânico Danny Boyle, o alemão Werner Herzog, o japonês Kore-eda e o italiano Nanni Moretti.

    Esta 83ª edição do Festival de Veneza será dominada por temas políticos. A disputa será acirrada, mas a seleção já é festejada pela equipe.

    “Para nós é um sucesso, um enorme êxito poder estar nessa competição. Vamos para Veneza e vamos curtir esse momento dessa viagem de um filme do cinema brasileiro, por meio de um filme internacional, na disputa com grandes realizadores e equipes talentosíssimas do mundo inteiro. Realmente vai ser uma emoção muito grande estrear esse filme em Veneza”, antecipa André Ristum.

    “Retorno a Buenos Aires” estreia no Festival de Cinema de Veneza em 11 de setembro, com a presença dos três coprodutores brasileiros, da atriz Paula Cohen e do ator Eduardo Hoy. O filme de abertura na noite desta quarta-feira é “Ink”, de Danny Boyle.


    Lisboa se torna o maior colégio eleitoral brasileiro no exterior da história Sep 01, 2026
    Show notes

    O consulado do Brasil em Lisboa registrou um número recorde de eleitores inscritos para votar para presidente este ano: quase 79 mil pessoas. É o maior colégio eleitoral brasileiro no exterior.

    Luciana Alvarez, correspondente da RFI em Portugal

    Em segundo lugar vem Boston, nos Estados Unidos e, em terceiro, aparece outra cidade portuguesa, o Porto. Houve um grande crescimento dos votantes: nas últimas eleições, em 2022, estavam registrados em Lisboa 45 mil eleitores brasileiros, o que significa um aumento de 86%.

    Para o cônsul-geral do Brasil em Lisboa, Alessandro Candeas, uma somatória de fatores levaram a uma subida tão expressiva. Um deles é o aumento no total de brasileiros vivendo em Portugal, mas há também aspectos como a necessidade de ter documentos brasileiros válidos para regularizar a residência na agência portuguesa das migrações, a AIMA, assim como a vontade de participar da vida política brasileira.

    “Ter o comprovante eleitoral é um pré-requisito para a retirada de documentos como o passaporte. Muitos brasileiros que moram aqui, tendo a necessidade de ter o passaporte para regularizar sua situação imigratória, precisam do certificado de eleitor", explica. "Mas, evidentemente, há um interesse de vinculação com a política brasileira, com a renovação dos mandatos”, explica ele.

    Operação logística

    A presença de tantos eleitores exige uma operação logística de peso. A equipe do consulado brasileiro tem trabalhado para aumentar a infraestrutura e evitar alguns dos problemas como registrados na eleição passada. Em coordenação com autoridades locais, conseguiram um reforço nos transportes públicos e no policiamento.

    Desta vez, serão 103 urnas, distribuídas em três prédios da Universidade de Lisboa – na eleição anterior, eram 58 urnas e apenas um prédio disponível, o que levou à formação de longas filas, em corredores apertados. No primeiro turno de 2022, o fim da votação teve que ser adiado em duas horas, para que todos que estavam à espera pudessem exercer o direito ao voto.

    Para o dia 4 de outubro deste ano, o cônsul promete mais “fluidez”. Além de aumentar os locais de voto, o consulado desenvolveu um chatbot que vai funcionar por Whatsapp para indicar exatamente para que prédio e sala cada eleitor deve se dirigir.

    “A nossa ideia é que o processo de se deslocar até a universidade, entrar no prédio, entrar numa fila e finalizar o processo de votação seja algo confortável e seguro. A gente quer que o eleitor venha, compareça e participe da forma mais tranquila e alegre possível, porque é uma festa”, afirma Candeas.

    A “festa da democracia” tem grandes proporções. “Estamos falando de 79 mil leitores, que significa um Maracanã cheio, para dar a dimensão. Além disso, mais de 400 mesários, mais um outro número de voluntários e também contratamos duas empresas de segurança para organização das filas”, diz Candeas.

    Vínculo com o país, apesar da distância

    O voto é obrigatório para os brasileiros com mais de 18 anos e até os 70 anos, mesmo para aqueles que moram no exterior. Mas, mais do que uma obrigação, para muitos é uma oportunidade de se manter vinculado ao país e dar exemplo de cidadania.

    Leandro Takeda se mudou para Portugal há 9 anos e tem dois filhos que nasceram em Lisboa. Ele fez questão de votar para presidente nas eleições passadas e, agora, está ainda mais satisfeito porque foi chamado para ser mesário. “Recebi a confirmação de realmente estar convocado. Vou com prazer e muito orgulhoso de ajudar meu país. Mesmo morando fora, o Brasil vai ser sempre nosso país, um país que a gente ama muito”, conta o eleitor.

    O cônsul-geral defende que a grandiosidade da votação em Portugal transforma o Brasil em um exemplo internacional de democracia e pode ajudar a promover uma visibilidade positiva da comunidade brasileira no exterior. “Mostra a pujança da nossa democracia. É uma vitrine para o próprio processo, para a qualidade tecnológica das urnas eletrônicas, e para o engajamento do povo", salienta. "Há um engajamento efetivo da comunidade brasileira aqui. Dá visibilidade para a comunidade brasileira, que é uma comunidade não só integrada a Portugal, mas que continua integrada ao Brasil, participando do momento político do seu país.”


    Venezuela: um cemitério para os mortos que ninguém veio reconhecer Aug 29, 2026
    Show notes

    Com os olhos marejados, Javier Monteverde se ajoelhou diante da cruz que leva o nome de Ashley Pino, uma das mais de 6.500 vítimas do terremoto duplo que devastou a Venezuela, sepultada no Cemitério da Esperança, em Carayaca, no Estado de La Guaira. Em silêncio, ele amarrou um bichinho de pelúcia na lápide da mulher desconhecida.

    Pedro Pannunzio, correspondente da RFI na Venezuela

    Monteverde, por alguma razão, sente-se atraído por aquela sepultura. No cemitério onde repousam centenas de pessoas não identificadas, o simples fato de encontrar um nome já é significativo. As lápides, porém, não trazem outras informações além da data da morte. “Me disseram que ela tinha 36 anos”, diz, sem ter certeza. Ele não tem qualquer pista sobre como eram seus traços físicos, sobre sua história, nem sobre o paradeiro de sua família.

    “Meus companheiros dizem que estou louco. Que me apaixonei por uma morta. Mas não é isso. De noite, quando caminho por aqui, meus pés me trazem a esse lugar. Algo me chama. Chego aqui e converso com ela”, contou o operador de máquinas que teve de deixar a construção civil para abrir covas para as vítimas do terremoto.

    Ele diz que chegou ao cemitério em 26 de junho, dois dias após o início da tragédia. Desde então, os mortos levados ao enterro se tornaram sua principal companhia, ao lado dos outros três colegas com quem divide uma barraca transformada em casa temporária, montada em frente às covas. “Trabalhamos desde cedo até a hora em que os mortos chegam. Às vezes, eles chegam às 7h da noite, e é preciso enterrá-los às 7h, 8h da noite.”

    O operador de máquinas que virou coveiro da noite para o dia foi um dos responsáveis por abrir, na semana passada, o espaço onde agora repousam 40 crianças e adolescentes não identificadas, que, durante quase dois meses, permaneceram no necrotério improvisado no porto de La Guaira à espera de algum familiar que pudesse fazer o reconhecimento dos corpos.

    “Talvez o pai e a mãe deles estejam ali, onde estão os outros enterrados. Os avós deles podem estar ali. Entende? É difícil, dói muito”, disse, às lágrimas, enquanto apontava para um dos lotes onde estão sepultados centenas de vítimas sem identificação.

    Ao menos 800 pessoas foram enterradas no Cemitério da Esperança sem terem sido reconhecidas, afirmou um rapaz que se apresentou como um dos coordenadores do local. Ele pediu para não ter o nome divulgado. O número equivale a mais de 10% do total de vítimas da tragédia. Segundo ele, não há valas comuns no cemitério, e cada pessoa é sepultada com o máximo de dignidade possível. “Colocamos cada cadáver com uma separação de 70 centímetros entre eles. Não há um cadáver sobre o outro. Isso não existe aqui.”

    Em cada lápide, há um número associado aos dados do falecido registrados no Serviço Nacional de Medicina e Ciências Forenses (Senamecf), órgão vinculado ao Ministério do Interior, Justiça e Paz. Posteriormente, familiares que procuram pessoas desaparecidas podem fazer exames de DNA para verificar se há compatibilidade com alguma das vítimas sem identificação.

    “Cada cadáver enterrado tem um código:123, por exemplo. Esse código, que corresponde a um falecido ou a uma falecida, está registrado no Cemitério da Esperança, em determinada área, em determinado setor, sepultado em determinada posição”, explicou um dos coordenadores do local.

    No cemitério, há lotes distintos para as pessoas reconhecidas e para aquelas que foram enterradas sem identificação. Nas sepulturas das vítimas sem nome, foram colocados pedaços de grama, algumas pedras e um pequeno arranjo de flores. Entre as dezenas de cruzes marcadas apenas por números e códigos, raríssimas são as que receberam decorações que revelam sinais de uma história: um retrato e um nome. Trata-se de casos em que os familiares conseguiram fazer o reconhecimento das vítimas após o sepultamento.

    40 crianças

    As 40 crianças, por outro lado, estão enterradas, por ora, em uma extensa área de terra recém-remexida. As sepulturas ainda não têm grama, flores ou qualquer identificação. Segundo os funcionários, as lápides devem ser instaladas em breve.Por enquanto, cada sepultura é marcada apenas por uma fina haste metálica fincada no chão. Desde o final de semana, brinquedos infantis, levados por uma voluntária, foram colocados diante de cada uma delas. Uma semana depois do sepultamento coletivo, os funcionários dizem que nenhum familiar foi ao local para reconhecer ou reclamar os corpos.

    Passados mais de dois meses da tragédia, vítimas ainda chegam ao cemitério. Ao redor das crianças sem nome, há dezenas de outras covas abertas, à espera de novos corpos. “Nós estamos nos preparando para qualquer quantidade de falecidos que possa surgir”, disse o funcionário.

    O governo venezuelano não divulga o número total de pessoas que ainda estão desaparecidas. Fora do cemitério, as operações para recuperação dos corpos acontecem sem data para serem encerradas.

    “Vai levar tempo. Aqui está sendo retidada laje por laje. Se a gente entrar com máquina, não vai ser possível reconhecer os corpos”, disse Hernán José Paredes, trabalhador vinculado ao Ministério do Poder Popular de Obras Públicas, que tentava, neste final de semana, quebrar um dos enormes blocos de concreto de um edifício que desabou na cidade de Caraballeda, também em La Guaira, distante há pouco mais de uma hora em carro do Cemitério da Esperança.


    Com recorde de brasileiros no exterior, terapia Navegantes oferece apoio a imigrantes em 40 países Aug 28, 2026
    Show notes

    Apesar da onda anti-imigração que se espalha pelo mundo, o número de brasileiros vivendo no exterior não para de crescer e bateu um novo recorde em 2025. Foi para apoiar essa diáspora brasileira espalhada pelo mundo que a psicóloga intercultural brasiliense Barbara Andrade criou, em 2024, a Navegantes.

    O relatório consular anual do Itamaraty, divulgado no início de julho, contabilizou quase 5,3 milhões de imigrantes brasileiros no ano passado, 110 mil a mais do que em 2024.

    Os dados oficiais do governo brasileiro não fazem distinção entre cidadãos em situação regular ou irregular. A contagem se baseia nas estimativas repassadas pelos consulados com base em cadastros e registros locais. Mas a diáspora brasileira seria muito maior porque os chamados “clandestinos”, que não têm visto de residência, costumam evitar o registro oficial com medo de serem deportados.

    Com o aumento do fluxo, os pedidos de assistência consular deram um salto de 55%, atingindo 95 mil atendimentos no ano passado. As demandas evidenciam a complexidade e a diversidade das situações vividas pelos imigrantes brasileiros. Vulnerabilidade social, questões jurídicas, problemas psicológicos, choque cultural e falta de integração são algumas das dificuldades encontradas.

    No ano passado, essa realidade foi ainda impactada pelo endurecimento das regras de imigração em vários países, como os Estados Unidos de Donald Trump, que deportaram milhares de brasileiros.

    Apoio psicológico negligenciado

    Para apoiar a diáspora brasileira espalhada pelo mundo, a psicóloga intercultural brasiliense Barbara Andrade criou, em 2024, a Navegantes.

    O projeto nasceu da percepção de que “a saúde mental, muitas vezes, não é priorizada durante o processo migratório”, explica a psicóloga. Segundo ela, os imigrantes geralmente estão concentrados em questões legais, financeiras e logísticas, o que faz com que o cuidado psicológico seja negligenciado.

    A Navegantes tem uma equipe de 15 psicólogos e oferece atendimento psicoterapêutico intercultural online, sempre em português, em cerca de 40 países. Atualmente, atende regularmente 42 imigrantes. Além das consultas individuais, também tem iniciativas coletivas em três áreas. O Guia de Bordo, em parceria com a BRASA (Rede Global de Estudantes Brasileiros no Exterior), é voltado para jovens que estudam no exterior. O Projeto Farol é direcionado a empresas e expatriados, e a Comunidade CAIS reúne cerca de 200 mulheres migrantes de língua portuguesa. O objetivo do projeto é combater o isolamento e fortalecer redes de apoio.

    A brasileira Dayanne Lopes Vieira, cientista de dados natural de Vitória, Espírito Santo, vive na França há nove anos. Hoje, ela é casada com um francês e mãe de uma menina de 3 anos. Sua trajetória como imigrante foi marcada por desafios de adaptação cultural, profissional e emocional. Os primeiros anos foram difíceis devido às diferenças no ambiente de trabalho e à sensação de solidão. Mais tarde, a maternidade trouxe novos desafios.

    “Ter um filho já é uma coisa que muda você, mas foi difícil porque a minha família não tava aqui, porque era uma cultura diferente, meu marido é francês, então eu tive que me adaptar bastante a uma rotina bem diferente, que seria completamente diferente no Brasil se eu tivesse o apoio da minha família por perto”, conta.

    Dayanne participou de reuniões de apoio da Comunidade CAIS. “Eu tive alguns apoios ao longo da minha estadia aqui na França. Quando eu busquei ajuda na Comunidade CAIS foi mais porque eu queria me conectar com mulheres, eu queria me conectar com mulheres que também eram imigrantes”, detalha.

    Acompanhamento psicológico direcionado

    A paulista Larisse Milato, profissional de marketing, vive fora do Brasil há 13 anos e é paciente da Navegantes há bastante tempo. Depois de passar pela Alemanha, onde teve muitas dificuldades de integração, Larisse mora há pouco mais de um ano em Paris. Ela divide sua vida entre a França e a Arábia Saudita, onde o marido trabalha.

    Para Larisse, o diferencial da Navegantes é o acompanhamento psicológico especializado para brasileiros que vivem no exterior. “O grande diferencial é que elas sabem o que estão fazendo e podem te ajudar, porque já viveram as dificuldades que um imigrante passa. Eu não abro mão da minha terapia semanal. Faz parte da minha rotina”, afirma.

    A paulista se sente integrada à cultura francesa, mas um elemento novo está complicando sua vida em Paris. “O calor está fora da curva”, diz, rindo, ao se referir às repetidas ondas de calor que atingiram a França neste verão.

    Grávida, Larisse pretende se mudar de vez para a Arábia Saudita depois do parto e do fim de seu atual contrato de trabalho. As diferenças culturais no mundo árabe são ainda maiores, mas ela lembra que todo imigrante sai do país para melhorar de vida.

    “Imigrante sai do seu país por dinheiro. Foi o meu caso e o do meu marido. A vida lá não é prazerosa. Você fecha os olhos para algumas coisas em países árabes. Você não gosta, mas está ganhando bem. Tem alguns luxos que tornam a vida um pouco mais fácil e você entra nessa bolha e segue”, relativiza, garantindo que essa vida de imigrante vale a pena. “Eu estou fazendo isso hoje, aos 36 anos, para daqui a 10 anos eu poder parar de trabalhar.”

    A catarinense Júlia Panazzolo vive na França há três anos. Ela morou dois anos em Paris e recentemente se mudou para Nice com o marido. Formada em Direito e ex-advogada, Júlia redirecionou sua carreira para a área criativa e hoje atua como criadora de conteúdo, artista plástica e professora de aquarela.

    A experiência migratória trouxe desafios que ela não esperava enfrentar, e Júlia buscou ajuda no acompanhamento psicológico da Navegantes. “Na minha cabeça eu achava que ia lidar super bem com a migração. Eu falava: ‘vou tirar de letra’, mais uma mudança. Quando eu cheguei aqui, a realidade foi outra”, lembra, citando dificuldades relacionadas à língua, ao clima, à solidão e ao início de um casamento em um novo país.

    A busca por apoio psicológico foi fundamental nesse processo, e a mudança de Paris para Nice, uma cidade menor e mais ensolarada, ajudou ainda mais Júlia a ganhar confiança para falar francês, criar conexões e se sentir mais integrada. Mesmo com os avanços, ela acredita que há um aspecto da imigração que permanece presente. “Eu acho que o fato mais difícil é que eu sempre vou me sentir imigrante”, afirma.

    Mulheres representam maioria dos clientes

    As mulheres, que podem ser mais vulneráveis no contexto da imigração, representam a maior parte da clientela da Navegantes. “As mulheres enfrentam desafios específicos ligados à maternidade, aos relacionamentos interculturais e à adaptação em novos contextos sociais. Elas merecem uma atenção especial”, indica a fundadora Barbara Andrade. A psicóloga da Navegantes acaba de se mudar para Portugal para fazer um mestrado, onde vive sua primeira experiência de imigração, que “tem ampliado sua compreensão do tema”.

    A Navegantes também trabalha voluntariamente com refugiados no Brasil, com retornados e com imigrantes deportados em consequência do endurecimento das políticas migratórias em outros países.

    “Eu diria que 2025 foi um dos anos mais desafiadores para a população migrante de modo geral. Nós tivemos inúmeros brasileiros que retornaram dos Estados Unidos para o Brasil. Essas pessoas buscam atendimento porque, apesar de terem voltado, elas ainda estão na condição de migrante, mas agora migrante no seu próprio país”, explica.

    Ondas anti-imigrantes

    As três migrantes brasileiras entrevistadas pela RFI não enfrentaram grandes problemas burocráticos para se instalar na França, mas ouviram muitas histórias de discriminação vividas por amigos ou conhecidos. As ondas anti-imigrantes em vários países, inclusive contra brasileiros como ocorreu recentemente em Portugal, também têm aumentado a busca por apoio psicológico.

    “Há casos de xenofobia, de pessoas que também sofrem racismo e violência institucional. Esse sofrimento psíquico acontece por conta de injustiças em relação ao direito migratório e à possibilidade de legalização”, relata.

    A capacidade de resiliência dos imigrantes impressiona Barbara Andrade. “São pessoas que também, muitas vezes, conseguem transformar essa dor, essas adversidades, em um processo coletivo”, ressalta.

    Processo coletivo

    As comunidades de brasileiros nas redes sociais se multiplicam, e muitas imigrantes criam perfis para contar suas experiências e ajudar os compatriotas, como Dayanne que, além de cientista de dados, virou influenciadora. “Quero mostrar que não é fácil, mas que também vale a pena.”

    O perfil gloriar.te, de Júlia Panazzolo, no Instagram teve “recentemente um boom de crescimento”, depois que ela passou a compartilhar como tem sido a transição entre Paris e Nice. “Muitas pessoas se identificaram com o conteúdo e pretendo continuar trabalhando com essa ideia de mostrar um pouco da minha vida aqui em Nice.” Na sequência, ela criou o Clube Criativo Riviera, uma comunidade que já reúne mais de 70 brasileiras na região para fortalecer laços, promover encontros e incentivar atividades criativas, que Júlia espera transformar em uma associação.

    Muitas ferramentas estão disponíveis para facilitar a integração e o fortalecimento da comunidade brasileira no exterior. Além da Navegantes Psicologia Intercultural, outros serviços também oferecem apoio aos imigrantes, assim como os consulados do Brasil em todo o mundo.


    Horário eleitoral gratuito estreia no rádio e na TV e segue como peça central das campanhas no Brasil Aug 28, 2026
    Show notes

    A propaganda eleitoral nas ruas e na internet já está em vigor desde 16 de agosto. A partir desta sexta-feira (28), porém, começa uma das fases mais visíveis da disputa política brasileira: o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão. Mas, segundo especialistas ouvidos pela RFI, sua influência já não se limita aos minutos reservados na programação das emissoras. Os conteúdos produzidos para a propaganda eleitoral ultrapassam a grade tradicional de transmissão, ganham repercussão nas redes sociais e alcançam novas audiências ao longo de toda a campanha.

    Maria Paula Carvalho, da RFI

    Até 1º de outubro, três dias antes do primeiro turno, os candidatos terão espaço garantido nas emissoras de rádio e TV para apresentar propostas, construir sua imagem pública e responder aos adversários. Embora as campanhas digitais tenham ganhado força nos últimos anos, especialistas avaliam que o horário eleitoral continua sendo um instrumento importante para alcançar milhões de eleitores simultaneamente.

    Para Nina Santos, pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD), a televisão e o rádio ainda ocupam um lugar relevante no consumo de informação política dos brasileiros.

    “Eu acho que esse ainda é um momento bastante relevante da campanha. Todas as pesquisas sobre consumo de informação e especificamente consumo de informação política mostram que tanto a televisão quanto a rádio ainda têm uma entrada muito grande na vida dos brasileiros, seja no domicílio, seja nos transportes. É claro que não é o peso que tinham antes, mas a gente precisa considerar que essas peças que são exibidas na televisão no horário gratuito de propaganda eleitoral também são usadas para repercussão nas redes”, afirma.

    Como funciona o horário eleitoral

    De acordo com as regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o objetivo do horário eleitoral gratuito é garantir que candidatos e partidos possam apresentar suas propostas e programas aos eleitores.

    A programação é composta por blocos de propaganda em rede, transmitidos simultaneamente pelas emissoras, além de inserções de 30 e 60 segundos distribuídas ao longo da grade normal de programação.

    Nas eleições gerais, as campanhas são exibidas em dias alternados. Às terças, quintas e sábados, o espaço é destinado aos candidatos à Presidência da República e à Câmara dos Deputados. Já às segundas, quartas e sextas-feiras, entram no ar as campanhas para governador, senador e deputados estaduais ou distritais.

    Mesmo com a fragmentação do público e a ascensão das plataformas digitais, o horário eleitoral continua oferecendo uma audiência garantida aos candidatos.

    “Quando você não tinha a internet, era muito diferente você falar no seu próprio programa eleitoral, ou você falar através de uma entrevista, através de um debate. Hoje, com os canais de mídias sociais, você já tem outras oportunidades de falar por si só. O que muda é que o horário eleitoral gratuito tem um espaço garantido para o candidato e um espaço que tem audiência”, observa Nina Santos.

    Da televisão às redes sociais

    Se antes o programa eleitoral era um dos principais canais de comunicação direta entre candidatos e eleitores, hoje ele faz parte de um ecossistema muito mais amplo, que inclui redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas de vídeo.

    Segundo o professor Camilo Aggio, do Departamento de Comunicação Social da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisador do INCT.DD, a lógica atual é de integração entre diferentes meios.

    “Nós temos esse sistema que se retroalimenta em muitos ambientes, em muitas instâncias. O mais importante, no final das contas, é gerar discussões nas redes sociais, gerar cortes de vídeos para consumo nas redes digitais e assim alimentar esse ecossistema que é muito mais complexo e extenso do que era na era do rádio e da televisão”, afirma.

    Como é dividido o tempo entre os partidos

    Criado como um instrumento para ampliar o acesso dos candidatos aos meios de comunicação de massa e reduzir as desigualdades provocadas pelo poder econômico nas campanhas, o horário eleitoral gratuito surgiu ainda no contexto da redemocratização do país.

    Pelas regras atuais, 10% do tempo disponível são distribuídos igualmente entre os partidos e federações aptos a participar da eleição. Os outros 90% são repartidos proporcionalmente ao tamanho das bancadas na Câmara dos Deputados.

    Para Nina Santos, apesar de continuar exercendo um papel importante na promoção do pluralismo político, o modelo precisa ser atualizado para acompanhar as mudanças no ambiente de comunicação.

    “Eu acho que ele cumpre essa função justamente de tentar igualar as possibilidades no jogo político e fazer com que os cidadãos e as cidadãs possam conhecer de fato as diversas vozes que estão em disputa no cenário eleitoral, mas a gente precisa começar a discutir uma atualização disso para o mundo da comunicação de hoje. Isso foi feito em um momento em que a comunicação era muito centralizada nos meios de comunicação de massa e hoje a gente sabe que o mundo digital tem uma importância muito grande”, reitera.

    A pesquisadora sugere que o debate sobre igualdade de oportunidades entre candidatos também avance para o ambiente das plataformas digitais.

    “Não valeria a pena a gente discutir como também ter mecanismos de igualdade de armas no jogo político dentro das redes sociais? Seria possível pensar em um horário eleitoral gratuito dentro das redes sociais, evidentemente não no mesmo formato, mas talvez haja maneiras sim de pensar na criação desses espaços. Isso me parece muito necessário para os próximos pleitos”, diz.

    Inteligência artificial deve ganhar espaço

    Além das redes sociais, outra novidade que tende a marcar a propaganda eleitoral de 2026 é o uso crescente da inteligência artificial na produção de conteúdo de campanha.

    Segundo Carla Rodrigues, coordenadora de Plataformas e Mercados Digitais da organização Data Privacy Brasil, a tecnologia já vem sendo utilizada para reduzir custos e ampliar a capacidade de produção de materiais audiovisuais.

    "Tanto na produção de vídeos para lançar uma campanha quanto na criação de jingles, a gente vê hoje um uso muito mais forte da inteligência artificial. Já observamos isso nas eleições municipais de 2024 e vemos essa tendência se repetir agora, em 2026. O uso da inteligência artificial veio para baratear a produção de conteúdo para esses canais, especialmente na televisão, onde esse tipo de produção costuma ser muito mais caro", conclui.

    Em um ambiente de comunicação cada vez mais fragmentado, o desafio agora é saber como preservar a igualdade de oportunidades entre os candidatos e garantir que os eleitores tenham acesso a informações de qualidade para fazer suas escolhas.


    Luta além dos tatames: trajetória da judoca Edinanci Silva vira livro Aug 27, 2026
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    A obra Edinanci Silva: Mulher Forte Sim Senhor, da jornalista Helena Rebello, foi lançada no Rio de Janeiro nesta quarta-feira (26), na Livraria Travessa, na zona sul da capital fluminense. O livro conta a história da judoca brasileira bicampeã pan-americana e relembra fatos que marcaram sua trajetória dentro e fora dos tatames. O evento reuniu personalidades do esporte e amigos de Edinanci, que representou o Brasil em quatro Olimpíadas.

    Marcio Arruda, correspondente da RFI no Rio de Janeiro

    A ex-atleta da seleção brasileira tem um carinho especial por Paris. Além da medalha de bronze no campeonato mundial disputado na capital francesa em 1997, a judoca lembrou a maior conquista em solo francês.

    “A França mora no meu coração porque em 2000 também consegui realizar outro grande feito, conquistar o torneio de Paris, que hoje é chamado de Grand Slam de Paris. Foi a primeira vez que subi ao pódio em primeiro lugar. Aquele resultado rompeu uma barreira nesse âmbito das grandes competições de alto rendimento”, disse Edinanci.

    Presente ao lançamento da biografia, a bicampeã olímpica Fabi Alvim destacou o tamanho de Edinanci para o esporte brasileiro. “Depois que eu comecei a jogar vôlei profissionalmente, entendi a dimensão da Edinanci para o esporte feminino brasileiro numa época em que o Brasil ganhava pouquíssimas ou nenhuma medalha. Eu fiquei muito comovida com a história dela", apontou.

    "As pessoas perderam tempo em não ouvir a Edinanci ao longo desses anos por ignorância e pela falta de sensibilidade. Eu espero que todo mundo que leia esse livro se sinta impactado, como me impactei”, comentou a ex-jogadora de vôlei, que escreveu a orelha do livro sobre a vida de Edinanci.

    Combate ao preconceito de haters

    A história dela vai muito além dos tatames. Nos anos 1990, a paraibana teve de lutar fora das competições contra um duro adversário, às vésperas dos Jogos Olímpicos de Atlanta: a ignorância de algumas pessoas que insistiam em discriminá-la por ela ter descoberto ser uma pessoa intersexo, ao possuir características biológicas masculinas e femininas. Edinanci sofreu ataques de haters numa época em que nem existiam redes sociais.

    “Se você recebe um hater analógico, você ainda consegue respirar porque você volta para casa, às vezes fica magoada, mas tem tempo para respirar e depois voltar e encarar com mais maturidade aquelas brincadeiras de mau gosto. Eu acho que o hater que acontece pelas redes sociais hoje em dia é muito mais danoso, porque a pessoa que sofre o ataque não tem tempo de respirar e fazer uma reflexão sobre o que está acontecendo. Você está sendo constantemente atacado", avalia. "É preciso tomar muito cuidado porque, se você não tem pessoas que te acolhem e te dão um conselho positivo, você acaba sucumbindo”, lembrou.

    A judoca acredita que o caso vivido por ela despertou a reflexão sobre um tema ainda desconhecido no Brasil. Na comparação com os tempos atuais, ela salientou os preconceitos enfrentados pelas pessoas transgênero.

    "Eu acho que cabe um debate da nossa sociedade para acolher essas pessoas. O objetivo não é excluir ou criar uma bolha; é acolher essas pessoas e respeitar o processo que cada um vive”, afirmou Edinanci.

    Mea-culpa da imprensa

    A autora e jornalista Helena Rebello se formava em jornalismo na época em que a atleta encerrava a carreira profissional. Para ela, faltava um mea-culpa da imprensa sobre a exploração midiática da vida da judoca.

    "Talvez ela não tenha conquistado uma Olimpíada muito por esses holofotes excessivos", observou. "Nesse processo de mais de dez anos tentando entrevistá-la, eu percebi que a história dela é muito mais densa e com muito mais camadas. Para mim, hoje, é uma honra concluir esse processo depois de tantos anos e levar a história da Edinanci para muitas pessoas para que conheçam e valorizem não só a atleta, mas principalmente esse ser humano incrível”, contou.

    Primeira brasileira a disputar quatro Olimpíadas (1996 a 2008), a judoca defendeu a seleção brasileira até 2008. Neste período, Edinanci foi bicampeã pan-americana nos Jogos de Santo Domingo (2003) e do Rio de Janeiro (2007), além de ter conquistado o bronze em Winnipeg (1999).

    A paraibana também coleciona duas medalhas de bronze nos Mundiais de 1997 em Paris e 2003 em Osaka, no Japão, além de ostentar o título do ano 2000 do Torneio de Paris.

    Edinanci no Hall da Fama do COB

    A biografia conta diferentes épocas da vida de Edinanci, desde a infância em Sousa, na região do Alto Sertão, a 430 quilômetros de João Pessoa, até o auge no esporte, passando por questões de gênero e inclusão vividas pela judoca.

    A paraibana, que recentemente completou 50 anos, disse que ainda não leu o livro, que é um verdadeiro documento de sua vida. “O objetivo principal é primeiro ter o retorno do pessoal que está com esse livro em mãos, ver o que todos acham da obra da Helena [Rebello]. A minha família também já me trouxe alguns relatos. Mas eu vou ler mais para frente”, prometeu.

    Em maio do ano passado, Edinanci foi eternizada no Hall da Fama do COB (Comitê Olímpico do Brasil). Ela é a primeira representante do judô feminino a entrar na seleta galeria de ícones do esporte brasileiro.

    “Tudo que faço é sempre tentando motivar pessoas e despertando consciência social. Eu nunca busquei vitrine, mas as homenagens acabam vindo e eu gosto desse reconhecimento, que é uma forma de resgatar a sua história”, disse Edinanci – uma mulher muito forte, sim senhor.


    ‘Apologia à narcocultura’: como grupos armados usam redes sociais para recrutar crianças na Colômbia Aug 25, 2026
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    Facebook e TikTok não conseguem impedir a circulação de conteúdos usados por grupos armados para aliciar crianças e adolescentes na Colômbia, e seus algoritmos podem até contribuir para ampliar esse alcance. É o que aponta um relatório da Human Rights Watch (HRW), divulgado nesta segunda-feira (24), sobre o uso das redes sociais no recrutamento de menores de idade para organizações criminosas e guerrilhas no país.

    Segundo a ONG, embora o recrutamento de crianças e adolescentes faça parte da realidade do conflito armado colombiano há décadas, as plataformas digitais passaram a desempenhar um papel cada vez mais importante nesse processo nos últimos anos.

    De acordo com dados oficiais compilados pela HRW, cerca de 1.500 menores foram aliciados por grupos armados desde 2021. Mais de 30% tinham entre 10 e 14 anos e quase metade pertencia a comunidades indígenas. As meninas, que representam 40% dos casos registrados, estão especialmente expostas a situações de violência sexual.

    Para Martina Rapido, autora do relatório, as redes sociais se transformaram em uma ferramenta estratégica para os grupos armados. "Diferentemente do que acontecia antes, quando havia muita coerção direta para recrutar as crianças, cada vez mais se usam as redes sociais", afirma a pesquisadora à RFI.

    A ONG informou ter alertado a Meta, proprietária do Facebook, e a ByteDance, controladora do TikTok, sobre os conteúdos encontrados durante a investigação. Segundo o relatório, as duas empresas afirmaram ter removido publicações denunciadas e reforçado mecanismos de combate ao recrutamento de menores por grupos armados.

    "Ambas as plataformas nos disseram que suas políticas proíbem a difusão desse tipo de conteúdo. Infelizmente, o que estamos vendo é que as medidas não são suficientemente rápidas e eficazes para identificar, prevenir e mitigar esse tipo de conteúdo. O que deveriam fazer é estabelecer mecanismos mais claros e rápidos para identificar e responder quando houver publicações do tipo, incluindo o encaminhamento desses casos às autoridades colombianas", sugere.

    Falsas promessas de emprego

    Segundo Nini Johana Daza, conselheira principal do Conselho Regional Indígena do Cauca (CRIC), departamento do sudoeste colombiano, as comunidades indígenas estão entre as mais afetadas pelo fenômeno. Para ela, o fato de os jovens estarem cada vez mais conectados em grupos com outros amigos via WhatsApp e TikTok facilita o aliciamento.

    "As pessoas que se dedicam justamente ao trabalho de recrutá-los desenvolvem toda uma estratégia para identificar quem pode ser recrutado. Quais jovens têm mais vulnerabilidades, como situações em que a família talvez não tenha recursos ou não tenha estabilidade psicológica para fazer uma denúncia. Então eles chegam e levam esses jovens", diz.

    Como exemplo, Daza relata o caso de uma mãe que só procurou o CRIC um mês após o desaparecimento do filho.O adolescente teria avisado na vizinhança que iria trabalhar em Cali, e a mãe acreditava que ele tinha ido por vontade própria. Mas, depois que o jovem iniciou um acompanhamento psicológico, contou que "não foi porque quis".

    "O rapaz revelou que, quando disse que não tinha interesse, responderam: 'Não importa. Em tal horário, você vai se apresentar em tal lugar e nós vamos buscar você'", detalha Daza.

    “Apologia à narcocultura” preocupa ONGs de proteção à infância

    O relatório aponta que os grupos armados utilizam publicações que glorificam a vida nas organizações criminosas e promovem falsas oportunidades de emprego para atrair jovens em situação de vulnerabilidade. Entre os conteúdos identificados pela ONG estão vídeos e fotografias de integrantes exibindo maços de dinheiro, joias e armas. Em outras publicações, os membros dos grupos aparecem em acampamentos ou ouvindo os chamados narcocorridos, um subgênero musical mexicano cujas letras e videoclipes frequentemente exaltam traficantes, cartéis e o estilo de vida associado ao universo do narcotráfico.

    O fenômeno também preocupa entidades dedicadas à proteção de crianças e adolescentes na Colômbia. Para María Mercedes Liévano, diretora da Save the Children Colômbia, o avanço das redes sociais criou novos desafios para a prevenção do recrutamento infantil.

    "Esses grupos estão ocupando as redes em uma velocidade impressionante para seduzir crianças e adolescentes nos territórios onde atuam, promovendo uma verdadeira apologia à narcocultura, ao poder, ao dinheiro e ao uso de motos. Esse é um fator que nos preocupa muitíssimo", afirma a diretora.

    A Human Rights Watch alerta que o recrutamento não se limita à participação direta em confrontos armados. Muitos jovens são utilizados para coletar informações, vigiar territórios ou operar drones. Entre os principais recrutadores estão o cartel Clan del Golfo, as dissidências das antigas Farc, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, além da guerrilha ELN, o Exército de Libertação Nacional.

    "O conflito armado na Colômbia se agravou e atualmente está presente em mais de 78% do território nacional. Isso é muito alarmante. Se observarmos os números, vemos que o efetivo desses grupos armados ilegais praticamente dobrou nos últimos anos. Em 2025, já havia mais de 28 mil integrantes nessas organizações. E, infelizmente, são as crianças e os adolescentes que estão reforçando esses grupos e também sendo usados para diferentes tarefas", explica María Mercedes Liévano.

    O tema toma força em um momento de endurecimento da política de segurança na Colômbia. O presidente Abelardo de la Espriella, da extrema direita, no poder há menos de um mês, defende uma ofensiva militar contra essas organizações com apoio dos Estados Unidos e de Israel.

    Leia tambémEUA encerram parceria antidrogas histórica com Colômbia e acusam Venezuela de narcoterrorismo


    Fotolivro faz levantamento de itens de ajuda humanitária para Gaza rejeitados por Israel Aug 17, 2026
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    O fotolivro “Rejected Items” (Itens Rejeitados), criado pela Tiratura, dos designers Walter Costa e Talita Virgínia, reúne imagens de produtos destinados à ajuda humanitária em Gaza que foram rejeitados por Israel. Desenvolvido no estúdio de criação sediado em Ravena, na Itália, o projeto converte essa lista de restrições em um manifesto visual sobre a crise humanitária no enclave palestino.

    Patrícia Moribe, da RFI em Paris

    A obra cataloga objetos de ajuda humanitária, de alimentos e equipamentos médicos a outros itens de primeira necessidade. Segundo os autores, esses produtos foram impedidos de entrar no enclave palestino pelas autoridades israelenses sob a justificativa de “duplo uso”, ou seja, de que poderiam ter aplicação tanto civil quanto militar.

    O fotolivro foi selecionado para a shortlist do Author Book Award dos Prêmios do Livro 2026 do festival Encontros de Arles, no sul da França, uma das principais premiações internacionais dedicadas à edição fotográfica.

    A ideia do livro surgiu da palestra de um representante da ONG italiana EducAid, que atua com projetos humanitários e educacionais na região. Segundo Walter Costa, a experiência despertou um sentimento de impotência e levou o grupo a buscar uma forma de contribuir por meio da publicação.

    O design do livro adota uma estética de relatório, em formato A4, e utiliza imagens encontradas na internet que remetem a catálogos de compras online. Segundo Costa, a escolha procura evitar que o espectador se proteja emocionalmente diante de imagens explícitas de violência. “Quando imagens violentas são mostradas, desenvolvemos um mecanismo de defesa; então utilizamos imagens assim higienizadas para cruzar esse escudo”, explica.

    Mecanismo perverso

    Para Talita Virginia, a arbitrariedade dos bloqueios é um dos aspectos mais perversos da situação. “Não existe uma lista oficial. Um item pode entrar hoje e ser bloqueado amanhã”, afirma. Entre os exemplos mencionados por ela estão produtos como gengibre, chocolate, brinquedos, papel A4 e uma incubadora.

    O livro tem preço sugerido de €15, e a receita das vendas, descontados os custos de produção, é destinada à ONG EducAid, segundo a divulgação do projeto.

    Hub de engajamento cívico e impressão sustentável

    A Tiratura, um espaço dedicado à pedagogia da imagem, à narrativa visual, ao design gráfico e à produção editorial, foi fundada em 2023, em Ravena, Itália, pelo italiano Walter Costa e a brasileira Talita Virgínia.

    O estúdio de criação abriga uma biblioteca especializada com quase 2 mil publicações relacionadas à fotografia, às artes gráficas e ao design, além de uma oficina Risograph, tecnologia japonesa de impressão sustentável.

    Em dezembro, Walter Costa e Talita Virginia ministrarão um laboratório de criação coletiva inspirado no cordel durante o Festival Solar de Fotografia, em Fortaleza. O workshop terá como resultado uma publicação produzida coletivamente pelos participantes.


    Ultrarricos avançam sobre o litoral de Portugal apesar de lei garantir praias públicas Aug 15, 2026
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    Neste verão europeu de calor extremo e incêndios, Portugal volta a enfrentar a polêmica das praias privadas e da falta de acesso ao mar. Um dos casos com maior repercussão midiática envolve os donos da Herdade da Comenda, uma área com 600 hectares no Parque Natural da Arrábida, no município de Setúbal. Eles contestam na Justiça a posse de cinco praias: Rasca, Comenda, Rainha, Maria Esguelha e Albarquel.

    Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Portugal

    A ação movida contra o Estado português e a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) foi refutada por ambos no tribunal de Setúbal, mas o processo continua. A família Mirpuri, que detém a Herdade da Comenda desde 2019, reclama a posse das praias por meio de um antigo documento de venda da propriedade em leilão público.

    No século XIX, D. Luís I, rei de Portugal e Algarves, assinou um decreto declarando domínio público hídrico, as águas do mar e seus leitos e margens, os portos, as praias, os rios, canais e docas. São bens que não se vendem nem se compram. No entanto, quem conseguir provar que já era dono de uma parcela de leito ou margem do mar antes de 1864 pode ter seus direitos reconhecidos.

    O presidente do Conselho Diretivo da APA, José Pimenta Machado, reafirma este princípio. “Em Portugal as praias são públicas. É verdade que há um processo em curso, mas as praias são públicas e, presume-se que são públicas, mesmo que haja alguém contestando que são privadas, como é o caso da Herdade da Comenda”, ressalta.

    Recentemente, centenas de manifestantes protestaram em defesa do usufruto público destas praias e contra a falta de acesso ao mar por caminhos que foram usados desde sempre pela população. João Cruz, da iniciativa “Deslarrrguem a Arrábida”, acusa a Câmara Municipal de Setúbal de passividade.

    “O que a Herdade da Comenda fez foi cercar com arame farpado, com grades e com redes ao longo da estrada de um lado e de outro, impedindo a circulação da população para dentro do que eles acreditam ser o direito exclusivo deles de propriedade”, denuncia.

    No mês passado, a Associação dos Cidadãos pela Arrábida e Estuário do Sado entregou mais uma petição pedindo a intervenção do Estado e da Câmara Municipal de Setúbal para que mobilizem todos os esforços para remover as vedações ilegais e repor os acessos indevidamente cortados pelos proprietários da Herdade da Comenda.

    Uma cancela no meio do caminho

    Na imensidão do azul do mar, bem em frente à Serra da Arrábida, se encontra um dos trechos mais bonitos do litoral português, que começa na península de Tróia e se estende até a praia de Melides, no município de Grândola. Porém, estes 40km de areias brancas e praias paradisíacas têm cerca de 80% dos acessos limitados ou inexistentes.

    Com a explosão da especulação imobiliária de alto luxo na região, a passagem pública até o mar é uma verdadeira odisseia. São inúmeras cancelas e muros que impedem o acesso livre às praias. Além disso, falta sinalização adequada e há poucos estacionamentos disponíveis. O luxo tornou a área inacessível a quem não é famoso nem poderoso.

    Em recente entrevista ao jornal Expresso, o filósofo Viriato Soromenho-Marques fez um alerta. “Vivemos uma situação em que o poder do dinheiro tenta sobrepor-se aos direitos constitucionais dos cidadãos.”

    Segundo a ativista Diana V. Almeida, do movimento “Reabrir a Galé”, é impossível chegar à praia da Galé-Fontainhas por causa da construção do resort residencial Costa Terra, da empresa americana Discovery Land Company. O empreendimento imobiliário é considerado o mais exclusivo de Melides.

    “Os seguranças impedem as pessoas de avançar pelas estradas públicas, já não estamos falando no acesso à própria propriedade”, diz Diana. Segundo ela, isso acontece também em outras áreas, como por exemplo na Comporta e na zona dos Brejos, onde as estradas públicas tem cancelas e as pessoas não podem passar e mesmo quando chamam a GNR – força de segurança pública de Portugal. “É impossível esta cancela ser levantada”, protesta a ativista.

    No mês passado, a ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, foi a seis praias de Grândola para conferir se as irregularidades encontradas pela APA foram corrigidas. De acordo com a ministra, os trabalhos de remoção de cancelas, colocação de sinalização e construção de estacionamento estão sendo feitos, mas o cenário ainda está longe do ideal. A Quercus, uma das faces mais visíveis do ativismo ambiental em Portugal, aguarda há dois meses uma resposta do governo sobre quando as obras serão concluídas.

    Litoral VIP

    Ao se firmar como destino de luxo e refúgio de milionários, este trecho da costa alentejana tem atraído nos últimos anos celebridades como Madonna, Angelina Jolie, Nicole Kidman e mais uma fila de ultrarricos dispostos a investir milhões de euros e dólares em fortalezas de luxo com pouca ética ambiental, como denunciam com frequência ONGs portuguesas de defesa da natureza.

    Com grande parte de Portugal sob seca severa, os campos de golfe atraem atenções por ainda usar pouca água residual para regar os espaços verdes. Em entrevista à RFI, a presidente da Quercus, Alexandra Azevedo, critica esse descaso. “Muitas vezes os campos de golfe destes empreendimentos de luxo são regados com água potável dos aquíferos em uma região que sofre uma crise de abastecimento de água”, condenou.

    Uma das mulheres mais ricas da Espanha, Sandra Ortega, herdeira do império Zara, inaugurou recentemente o seu resort de luxo, o Na Praia, em Tróia, com diárias que podem chegar a € 5.700. O projeto teve as obras suspensas por causa de uma medida cautelar movida por associações ambientalistas, que apontaram irregularidades, como a eliminação total da vegetação e a terraplanagem das dunas. Apesar disso, a Justiça portuguesa considerou a paralisação improcedente e liberou a conclusão das obras.


    Proibição de redes sociais a menores de 15 anos gera diálogo saudável entre pais e filhos na França Aug 12, 2026
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    Em 1º de setembro, no início do ano letivo na França, entra em vigor a lei que proíbe redes sociais a menores de 15 anos. Pais e filhos ouvidos pela RFI opinaram sobre a medida. É consensual que o modo de funcionamento dos algoritmos das plataformas causa impactos negativos para os jovens.

    Vitória Barreto, para a RFI em Paris

    A França se tornou o primeiro país na União Europeia a estabelecer uma lei de idade mínima para o acesso às redes sociais em âmbito nacional. A iniciativa faz parte de um movimento crescente de governos que buscam limitar a exposição de crianças e adolescentes às plataformas digitais diante de preocupações com saúde mental, privacidade e segurança online.

    O texto, aprovado em julho pela Assembleia e pelo Senado, ainda requer um detalhamento sobre o método de verificação de idade dos usuários. Mas já está definido que, para as contas existentes, o prazo de verificação da idade mínima termina em dezembro.

    Alain Bleu, supervisor técnico de transmissão de rádio e TV, pai de um adolescente de 14 anos, vê a nova legislação com reservas. Embora reconheça os riscos associados ao uso das redes sociais por jovens, ele questiona a eficácia de uma proibição implementada abruptamente.

    “Já existe um sistema em que as pessoas vivem com as redes sociais. Impor um controle de repente, acho que surpreende, e não sei se é a resposta certa fazer desse jeito", disse Alain. “Acho que os políticos não tiveram a reflexão necessária quando essas redes sociais começaram, porque já havia evidências, os psicólogos já falavam dos perigos, dos problemas”, acrescentou.

    Saúde mental em jogo

    Uma das principais justificativas para a implementação da lei é a proteção da saúde mental dos jovens. Segundo a agência de saúde francesa, um em cada dois adolescentes passa entre duas e cinco horas por dia conectado a um smartphone.

    Um relatório mostrou que o uso de redes sociais traz uma série de efeitos negativos: a queda da autoestima dos adolescentes e o aumento da exposição a conteúdos ligados a comportamentos de risco.

    Inès Legendre, assessora jurídica da e-Enfance, organização francesa de proteção de menores no ambiente digital, afirma que a associação recebe frequentemente ligações de pais que se sentem desamparados diante do tempo que os filhos passam em frente às telas e nas redes sociais. Segundo ela, os jovens ficam expostos muitas vezes a “conteúdo que promove a magreza extrema, ou posts ligados ao suicídio”.

    Críticos apontam que a lei pode ser utópica, já que os próprios jovens podem encontrar formas de contorná-la.

    Na Austrália, por exemplo, mais de 80% dos adolescentes com menos de 16 anos continuaram nas redes sociais três meses após a proibição nacional entrar em vigor, segundo pesquisa do órgão regulatório do país.

    Ainda assim, para a jurista francesa, a lei é um passo importante para a regulamentação das redes no bloco europeu.

    “Como os próprios parlamentares que votaram o texto final da lei já disseram, ela é, na verdade, simbólica. Serve, antes de tudo, para pressionar a União Europeia a agir. O bloco até já fez bastante coisa nessa área, mas, no momento, quem tomou a frente mesmo foi a França,” enfatizou.

    Leia tambémFrança aprova veto às redes sociais para menores de 15 anos e lidera movimento inédito na UE

    As redes como espaço de refúgio

    O filho de Alain, de 14 anos, cuja identidade foi preservada por ser menor de idade, afirma que passa bastante tempo nas redes sociais, onde acompanha principalmente conteúdos relacionados a temas de seu interesse, como política.

    Apesar do hábito de usar essas plataformas com frequência, ele diz ser favorável à nova lei. Na sua avaliação, diferentemente dele, muitos de seus amigos enxergam as redes sociais como um espaço de refúgio, mas nem sempre seguro.

    “Eles pensam que a rede social é uma forma de escapar da vida real e que agora estão tirando essa válvula de escape de pessoas que vivem, por exemplo, em um ambiente familiar difícil ou cercadas de relações tóxicas”, afirma.

    O adolescente reconhece, no entanto, que os benefícios das redes convivem com riscos importantes.

    “Quando você percebe que o mesmo algoritmo que pode ajudar alguém a encontrar apoio também pode expô-lo a conteúdos ligados ao suicídio, por exemplo, os efeitos negativos acabam sendo ainda maiores. É por isso que considero essa lei uma boa medida”, acrescenta.

    Leia tambémUE exige que Meta mude 'design viciante' do Facebook e do Instagram para evitar multa

    A importância da educação em casa

    Para o empreendedor Jonathan Kiloso, pai de uma menina de 11 anos, a lei é um passo importante, mas acredita que a verdadeira solução está na comunicação entre pais e filhos.

    “O verdadeiro caminho seria ensinar as crianças a cuidar dos próprios dados, pensar na imagem que deixam na internet e entender que certas atitudes têm consequências tanto para os outros quanto para elas mesmas. E também ajudá-las a entender como os algoritmos funcionam,” disse o pai.

    “Quando esses pontos já estiverem bem trabalhados, dentro de um diálogo aberto e transparente entre pais e filhos, aí sim dá para pensar em limitar o acesso delas”, acrescentou.

    A filha pré-adolescente de Jonathan é a favor da lei, porque sente que não teria a mesma infância se usasse as redes sociais.

    “Quando você tem menos de 15 anos e não tem redes sociais, pode ficar mais aberto ao que está ao seu redor. Já a maioria dos jovens de 15 anos vive grudada no celular e não se abre para o mundo. Não estou dizendo que isso vai acontecer comigo, mas, se tivesse redes sociais, talvez passasse meu tempo nelas, e não é isso que eu quero."

    Um dos principais críticos da lei é o partido de esquerda radical França Insubmissa. Apesar de concordar com a necessidade da proteção de menores, defende que as redes sociais são um espaço importante de socialização, acesso à informação e na introdução dos jovens ao debate público.

    Até setembro, o governo francês deve detalhar os possíveis métodos de verificação da idade dos adolescentes. Entre as opções em estudo estão a estimativa de idade por selfie, analisada por algoritmo, ou por apresentação de um documento de identidade.

    Na volta às aulas, a França também amplia as restrições ao uso de smartphones no ensino médio, oito anos depois da adoção da medida no ensino fundamental.

    Segundo o governo francês, pesquisas realizadas em escolas que restringiram os aparelhos mostraram efeitos positivos sobre a concentração dos estudantes, o clima escolar e a redução de episódios de bullying nas redes.


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